quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ebola – perguntas e respostas


1.     O que é o Ebola?
Ebola é o nome de um vírus que foi identificado pela primeira vez em 1976 no Zaire (hoje República Democrática do Congo) numa aldeia perto de um rio com o mesmo nome.
Existem 5 subtipos do vírus Ebola:  Ebola-Zaire; Ebola-Sudão; Ébola-Costa do Marfim; Ebola-Bundibugyo; Ebola-Reston. Destes o Ebola-Reston não causa doença em seres humanos. Os outros 4 causam uma doença que pertence ao grupo das febres hemorrágicas virais.
O subtipo mais virulento (que causa sintomas mais severos; mais perigoso) é o Ebola-Zaire. Este é o subtipo que está a causar o surto na África Ocidental neste momento.

2.     O que são febres hemorrágicas virais?
É um grupo de doenças que variam muito em termos de severidade. Têm em comum o facto de que criam coágulos dentro dos vasos sanguíneos ao ponto de acabar com a reserva de factores coagulantes aumentando a probabilidade de sangramentos. Para além do Ebola, outros exemplos de febres hemorrágicas são: a dengue, febre amarela, vírus Marburg, febre de Lassa.

3.     Como é a doença?
Normalmente os sintomas aparecem 5 a 10 dias após a infecção, mas pode levar até 20 dias. Os primeiros sinais e sintomas são idênticos aos da gripe e incluem febre, dor de cabeça, dores musculares e nas articulações e fraqueza. Com a progressão da doença aparecem outros sintomas com irritação da pele, tosse, enjoo e vómitos, dor abdominal. Os sangramentos (hemorragias) podem se manifestar de várias maneiras (a severidade dos mesmos varia de pessoa para pessoa). A pessoa pode sangrar pelos olhos, orelhas, nariz e boca; ter sangramentos internos; tossir sangue; vomitar sangue; ter sangue nas fezes. Por fim os órgãos vitais param de funcionar o que leva à morte.
As pessoas que sobrevivem à doença podem ficar com sequelas para a vida inteira como hepatite, fatiga, dor de cabeça e inflamação testicular.

4.     Como se apanha?
O vírus é transmitido quando fluídos corporais (suor, saliva, lágrimas, sangue, vómito, espeturação, urina, sémen, fluídos vaginais) de um animal ou pessoa infectados entram em contacto com as mucosas ou ferimentos abertos de uma pessoa não infectada. Mucosas são a pele dentro da boca, do nariz, dos olhos e dos órgãos genitais.
Os surtos começam quando uma pessoa é infectada ao preparar carne de um animal selvagem que tinha o vírus. Esta pessoa depois fica doente e transmite a infecção para as pessoas que cuidam dela.
Como o vírus está no suor basta tocar na roupa suada de uma pessoa infectada e depois levar a mesma mão aos olhos para ficar infectado.
O vírus não se transmite através do ar. Neste aspecto é diferente dos vírus que causam as constipações e as gripes. Isto faz com que este vírus seja muito menos perigoso que certos vírus da gripe.

5.     Qual é a taxa de mortalidade?
A taxa de mortalidade (percentagem de pessoas infectadas que morre) varia consoante o subtipo do vírus. O vírus mais virulento (que causa sintomas mais severos e que tem a maior taxa de mortalidade) é o Ebola-Zaire. Este é o subtipo que está a causar o surto na África Ocidental neste momento.
O Ébola-Zaire tem uma taxa de mortalidade que varia entre 90% para as pessoas que não recebem nenhuma atenção médica e 50% a 60% para as pessoas que recebem cuidados intensivos hospitalares.

6.     Qual é o tratamento/vacina?
Neste momento não existe nenhuma vacina contra o vírus Ébola. Existem algumas vacinas que estão a ser desenvolvidas e talvez venham a estar no mercado no futuro.

Infelizmente também não existe nenhum medicamento que ataca o vírus em si. Mas isto não significa que não haja nada que o pessoal de saúde possa fazer, como eu disse acima a probabilidade de sobreviver aumenta bastante com o internamento hospitalar.

No hospital as pessoas recebem cuidados intensivos, re-hidratação por soro, transfusões sanguíneas e reanimação se for necessário.

Existem alguns medicamentos em fase experimental que precisam passar por testes clínicos antes de serem libertados para o mercado. Um destes medicamentos é o ZMapp que foi usado esta semana para tratar dois americanos que contraíram o vírus. Felizmente ambos recuperaram da infecção e parece que vão sobreviver. No entanto não é possível saber se esta recuperação se deve ao ZMapp ou não (lembro que entre 50% a 60% das pessoas que contraem a doença sobrevivem desde que recebam tratamento médico), logo é pouco provável que a OMS recomende o uso deste medicamento para já. 

7.     Como se previne?
Deve-se evitar ao máximo contacto com pessoas infectadas. Se há suspeita de que alguém possa estar infectado, deve-se levar essa pessoa à unidade sanitária mais próxima o mais rápido possível. Todas as pessoas que entraram em contacto com a pessoa infectada devem ser monitoradas para o aparecimento de qualquer dos sintomas e sinais de infecção. Os bens pessoais da pessoa infectada, bem como a sua casa deve ser desinfectado por pessoal treinado o mais rapidamente possível.

Evita levar as mãos à cara. Lava as mãos frequentemente. Não toques em pessoas infectadas ou com suspeita de infecção sem luvas. Usa o preservativo sempre que tiveres relações sexuais.


8.     Quem corre maior risco de contrair o vírus?
Todas as pessoas que entrarem em contacto directo com pessoas infectadas. Os familiares diretos dos doentes e o pessoal de saúde são as pessoas que mais risco correm.

9.     Será que esta doença vai chegar a Moçambique?
O surto neste momento está a ocorrer na África Ocidental, especificamente na Guiné, na Libéria e na Serra Leoa. Houve um caso de um paciente que foi para Lagos, Nigéria e contaminou algumas enfermeiras lá, mas a situação na Nigéria, até agora, está muito mais controlada.

Devido à atenção que o surto está a ter nestes países algumas companhias aéreas cancelaram os voos para os mesmos. Ao mesmo tempo estão a  ser tomadas medidas para evitar a migração de pessoas que possam estar infectadas. Tendo em conta estas medidas e o facto de que não há nenhum voo direto para Moçambique a partir dos países afectados, neste momento é pouco provável que o surto chegue a Moçambique. Claro que isto pode mudar com o evoluir da situação, mas por enquanto Moçambique está relativamente protegido pela distância geográfica e falta de acessos fáceis. 

10.  Perspectiva
O primeiro surto do vírus Ebola foi em 1976, há 38 anos atrás. Desde então o número total de casos (até o dia 6 de Agosto de 2014) é de 4 116 (quatro mil cento e dezasseis). Este número inclui casos em que há apenas suspeita de infecção, em que a infecção é provável (um pouco mais de certeza que em casos onde só se suspeita) e confirmados (por teste laboratorial). Estes casos incluem infecções pelos 4 subtipos que causam doença em seres humanos. O número de total de mortes até agora é 2 509 (dois mil, quinhentos e nove), o que representa uma taxa de mortalidade cumulativa de 61%.

Nestas situações é sempre bom ter um pouco de perspectiva. O vírus Ebola causa uma doença horrível, não há nenhuma dúvida. Todos os esforços possíveis devem ser feitos para evitar que este surto se espalhe para outras regiões e para evitar novas infecções na região afectada.

Existe uma outra doença, também causada por um vírus, que tem uma taxa de mortalidade que ronda os 100%. A doença tem um período de incubação mais longo, 1 a 3 meses, mas os sinais e sintomas são extremamente horríveis: febre, comichão e uma sensação de queimadura na pele são seguidos de uma inflamação cerebral fatal. A doença tem duas formas, numa delas a pessoa exibe sinais de hiperactividade e excitação, medo da água e às vezes do ar. Passados alguns dias a pessoa morre. Em 30% dos casos a infecção resulta em paralisia muscular progressiva que acaba em coma e finalmente morte. Existe uma vacina para esta doença, mas o acesso à mesma é restrito. Esta doença existem em 150 países do mundo e é responsável por 55 000 (cinquenta e cinco mil) mortes por ano, na sua maioria crianças menores de 15 anos. Esta doença é a raiva. Em Moçambique nós temos o vírus da raiva.

O plasmódio (parasita que causa a malária) continua a ser o organismo mata mais seres humanos no mundo sendo responsável por aproximadamente 600 000 (seiscentas mil) mortes por ano. Não existe ainda nenhuma vacina que seja eficaz na proteção contra a malária. Existem vários medicamentos dos quais a artemisina é o mais eficaz. No entanto há uma nova estirpe do plasmódio que é resistente a este medicamento fazendo com que este não seja eficaz no tratamento da malária. Se esta estirpe resistente se espalha pelo mundo o número anual de mortes causadas pela malária vai aumentar. Em Moçambique a malária é a principal causa de morte por doenças infecto-contagiosas.

A probabilidade de um surto de Ebola em Moçambique é neste momento pequena, apesar de ser maior que a probabilidade do mesmo na Europa por exemplo. A probabilidade de que um possível surto em Moçambqiue venha a infectar qualquer um de nós é ainda mais pequena, estes surtos tendem a infectar pouca gente (o surto actual que é o mais severo já registado até agora apenas afectou 0,008% da população dos 3 países), na sua maioria pessoal de saúde.

Por outro lado a probabilidade de qualquer um de nós ter ou contrair o vírus da Sida em Moçambique é neste momento 11%.


Quando se trata de risco a familiaridade leva a pessoa a ignorar. Nós damos pouca importância a riscos reais e severos contra a nossa saúde e temos verdadeiro pânico de riscos que provavelmente nunca encontraremos. É por isso que as pessoas têm mais medo de tubarões do que de cães (que transmitem a raiva) por exemplo. No caso dos surtos de Ebola estamos perante o mesmo fenómeno. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Quando as "ajudas" desajudam... ou sobre a hipocrisia do opressor.

Micaela Oliveira é uma estilista de alta-costura que faz vestidos de noiva e de gala. Rita Pereira é uma atriz e modelo que neste momento tem contrato com a Micaela Oliveira. Como promoção da sua mais recente colecção a Micaela Oliveira fez um photoshoot em Moçambique.
Abaixo transcrevo na íntegra o texto de introdução a esta campanha:


ÁFRICA - O cenário desta nova campanha “MICAELA OLIVEIRA 2014”
A terra, o cheiro, as paisagens, as pessoas, a sua genuinidade que ficarão para sempre na minha memória... uma viagem cheia de peripécias fez destes dias uma experiência única de vida e uma sessão fotográfica maravilhosa!
Faltam palavras para transmitir as sensações vividas nesta aventura.
Os momentos passados na cidade de Maputo não foram fáceis, no entanto foram emocionantes, indescritíveis…de tão belos! A autenticidade das pessoas, o afecto e o carinho que nos demonstraram fazem-me agora emergir recordações intensas e um sentimento de saudade! Percebi que um sorriso é a riqueza daquele povo. Um muito obrigado a eles, pois engrandecem-nos como seres humanos.
A toda a equipa, agradeço todo o esforço, dedicação e empenho!
Um até breve Moçambique!!”

(só este texto já me trás um sabor amargo à boca)


A primeira parte do photoshoot é feita na Reserva dos Elefantes de Maputo. A modelo descreve uma viagem de horas (do Hotel Polana até à Reserva leva, no máximo, 2 horas - a não ser que se tenham perdido, e são duas horas porque 1 é no batelão a atravessar a baía), trocas de roupa no carro e esperas pelos animais (algumas zebras e girafas - realmente a densidade animal nos nossos parques não é grande, por isso não me espanta nada que tivessem de esperar um bocado para os ver). Uma verdadeira aventura! As fotos estão bonitas, o contraste entre a savana e os cinco vestidos de luxo serve para realçar a beleza de ambos.

A segunda parte da "aventura" é na cidade de Maputo, no bairro da Mafalala, onde a modelo é fotografada em mais quatro vestidos no meio de alguns habitantes do bairro. Estas fotografias também estão bonitas e contam uma estória já conhecida do amigo europeu e do pobre africano.

Se havia alguma dúvida sobre a estória que este photoshoot quer contar há uma foto específica que dissipa quaisquer dúvidas. Nesta foto, a preferida da modelo, só aparecem duas caras, a da modelo e a de uma criança que chora uma lágrima. A expressão da modelo mostra verdadeira compaixão para com esta pobre criança africana que chora. É muito bonita a foto (apesar de não servir para vender nenhum vestido). A estória do photoshoot... nem tanto. É uma estória cansada sobre a África selvagem e bela cheia de animais magníficos e de pessoas (também selvagens) pobres e tristes. É uma estória deprimente. É uma estória simplista. É uma estória opressiva.

Opressiva no sentido em que quem a conta é o opressor e as personagens são os oprimidos. O que faz desta estória uma estória deprimente é que quem a está a contar, a estilista e a modelo e todos os outros que trabalharam no photoshoot pertencem ao grupo dos privilegiados (europeus) e as personagens pertencem ao grupo dos desprivilegiados (africanos). E para completar o cliché da coisa quando os desprivilegiados reclamaram os privilegiados ficaram ofendidos.

Este é um dos problemas que os grupos de desprivilegiados encontram quando tentam falar dos seus problemas. É preciso ter atenção e não ofender os sentimentos dos privilegiados. Faz parte destas discussões que os privilegiados vão transformar uma discussão sobre os problemas dos desprivilegiados numa discussão sobre os sentimentos dos privilegiados. Afinal os privilegiados estão habituados a ser o centro da atenção...

Voltando ao belíssimo photoshoot, algumas pessoas não gostaram dos contrastes... não gostaram de ver mais uma vez a sua identidade reduzida a animais selvagens, pobreza e tristeza (porque será?...). Estas pessoas reclamaram. Disseram que esta estória, apesar de não ser mentira, não é verdade. Afinal não representa a realidade deles, têm razão. Disseram que usar a pobreza de um povo para vender roupas de luxo é de uma hipocrisia que mete nojo e... têm razão. Questionaram a lágrima do foto preferida, era uma lágrima falsa que deliberada e falsamente tenta passar uma imagem de um povo sofrido ou é uma lágrima real selvaticamente explorada(?)... têm razão.

A modelo respondeu que as pessoas estavam felizes e isso é o mais importante. Claro que estavam felizes! Deve ter sido uma festa. Quando uma produção do género apareceu na minha universidade em Cape Town também foi uma festa e sempre que uma produção do género aparece aqui na minha universidade nos Estados Unidos também é uma festa! Isso é natural, qualquer pessoa que não vive de photoshoots acha um photoshoot uma festa, seja essa pessoa triste e rica ou alegre e pobre. A pergunta cínica seria "estavam felizes porque foram pagos de acordo com a geração de vendas que a exploração da sua falsa tristeza e pobreza vai criar ou estavam felizes porque é emocionante ter um monte de gente a fazer um photoshoot no bairro?". Mas deixemos o cinismo para lá.

Uma das razões que eu acho este photoshoot irónico é que, tirando o facto de eu ser branca, eu em criança era exactamente como as crianças que aparecem nessas fotos. Descalça a brincar na rua e a subir a árvores. No entanto ninguém nunca vai associar as minhas fotografias de criança a um futuro perdido, as minhas fotos não qualificariam para este photoshoot... É o facto de que as fotos destas crianças qualificam que mostra o quão opressivas estas fotos são.

Outros responderam que este photoshoot mostra a realidade de Moçambique? Aqui eu fico confusa, que realidade? É que a própria estilista fala do eterno sorriso moçambicano no seu texto sobre a campanha... que realidade é esta de crianças com lágrimas na Mafalala (para além das lágrimas normais que todas as crianças em todo o mundo têm)? Será que mais ninguém vê a hipocrisia nisto? E se, em vez de Moçambique, o photoshoot tivesse sido num bairro pobre em Lisboa - usando crianças lisboetas com lágrimas no rosto para vender roupas de luxo? Será que aí os comentários seriam  "essa é a realidade"?

Houve quem disse que esta é a única maneira de obtermos doações... Sinceramente, estamos em 2014, será que as pessoas acham mesmo que Moçambique recebe empréstimos graças a campanhas publicitárias de roupas de luxo que exploram crianças negras com lágrimas no rosto? Parece que sim. Deixem-me que vos explique como isto funciona, Moçambique recebe empréstimos, com taxas de juros altas, não de pessoas particulares mas sim de governos, do Banco Mundial e do FMI. Quando estes governos (e instituições) estão a decidir se vão emprestar dinheiro a Moçambique ou não eles olham para uma série de dados - as campanhas publicitárias de uma marca de alta-costura não são um desses dados. Nós podemos publicar uma foto por dia em todos os jornais do mundo com uma criança a chorar que isso não vai melhorar as nossas chances de obter empréstimos se as nossas políticas económicas não suscitarem confiança.

Se estavam a falar de doações particulares de pessoas que não são milionárias... com todo o respeito, esse tipo de doações não são a solução para os nossos problemas. Da mesma maneira que Portugal (ou a Grécia ou a Irlanda) não precisa de doações de roupa mas sim de dinheiro de verdade nos cofres, Moçambique também precisa é de dinheiro de verdade nos cofres... o resto é cosmético, ajuda só a tapar buracos (e às vezes nem isso).

E a seguir entramos na má gestão de fundos por parte do governo moçambicano e aí eu pergunto "o que é que o cú tem a ver com as calças?". Como é que a corrupção em Moçambique justifica o usar crianças a chorar para vender roupa de luxo? Como é que a corrupção em Moçambique justifica o perpetuar da imagem do pobre selvagem que não pode fazer nada para além de chorar? Como é que a corrupção em Moçambique justifica o diminuir de um povo inteiro para vender roupa de luxo? Será que a corrupção do governo de Portugal justificaria o usar do povo português da mesma maneira? Será que estas pessoas ficariam contentes se este photoshoot tivesse sido feito nas ruas de Lisboa?

E para quem ainda está a falar de "ajudas" eu relembro que esta não é uma campanha para caridade mas sim uma publicidade para vender roupas de luxo. A única pessoa que vai receber doações por causa deste photoshoot é a Micaela Oliveira, não as crianças da Mafala e muito menos as crianças do Congolote.


O problema deste photoshoot é que explora a pobreza real de um povo. O problema deste photoshoot é que reduz este povo a essa pobreza. O problema deste photoshoot é que é um objecto de opressão de um povo. 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O texto que eu gostaria de estar a escrever

"Eu desaprovo o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo."
 Evelyn Beatrice Hall

Diamantino Miranda meteu os pés pelas mãos e cometeu a maior gafe da sua carreira até hoje. Na verdade eu sinto pena dele, ele exaltou-se e está a pagar por isso.

Quando eu ouvi falar da já famosa "não entrevista" comecei logo a pensar no texto que queria escrever sobre o assunto. Os argumentos estavam todos alinhavados à espera, apenas, do desfecho da questão. Quando o desfecho chegou, estragou-me os planos.

Eu queria estar a escrever sobre como a maior parte dos moçambicanos vão reagir mal aos comentários de Diamantino, não porque estes são novidade, mas porque estes foram proferidos por um cidadão de nacionalidade portuguesa. Eu queria estar a escrever sobre a relação difícil entre cidadãos moçambicanos e portugueses quando se trata de assuntos de Estado. Eu queria estar a explicar porquê os comentários de Diamantino soam a insulto nacional mesmo que essa não tenha sido a sua intenção. Queria estar a explicar que todos nós, moçambicanos, podemos estar sempre a dizer que o nosso país não é sério, que os nossos jornalistas não são sérios, mas que um estrangeiro e principalmente um cidadão português não pode dizer o mesmo em público (mídia e não restaurantes, porque nos restaurantes há muita gente a dizer isso sem consequências) e esperar ter uma carreira em Moçambique.

Eu gostava de estar a escrever um texto sobre como o complexo de ex-colonizado é real e tem consequências reais. Eu gostava de estar a escrever um texto onde eu explico porque é que Moçambique (ou qualquer outra ex-colónia africana) é diferente do Brasil. É que há quem não entenda que o Brasil passou de colónia a metrópole e teve a sua independência em 1822, quase à 200 anos atrás. Para quem não consegue fazer contas isto significa que ninguém no Brasil de hoje viveu o colonialismo enquanto nós em Moçambique ou vivemos ou somos 1ª ou 2ª geração independente. Para nós, moçambicanos, o colonialismo não é algo que lemos no livro de História, para nós o colonialismo são as histórias humilhantes vividas ou contadas em primeira mão pelas pessoas que nos são mais queridas.

Eu queria estar a explicar que apesar de Moçambique ser um país com um índice de corrupção elevado isso não significa que nós somos todos corruptos. Não porque eu acho que Diamantino Miranda acredita que TODOS os moçambicanos sejam corruptos, mas porque uma vez que se disse "vocês são todos ladrões" é preciso dizer o contrário. Nós em Moçambique não somos todos ladrões. Os nossos jornalistas não são todos vendidos. Os nossos políticos não são todos corruptos. Moçambique tem gente honesta e gente desonesta. A grande maioria dos moçambicanos são honestos e não merecem ser agrupados em generalizações obtusas por pessoas frustradas com o resultado de um jogo de futebol.

Eu queria estar a escrever um texto onde eu falo do complexo recíproco, o complexo do ex-colono. As características deste complexo são o insistir no distanciamento pessoal ao colonialismo expresso em frases como "Eu nunca colonizei ninguém!"; o insistir na natureza benéfica do colonialismo português (a construção das infraestruturas; a maravilhosa e internacional língua portuguesa; a diferença com os colonialismos britânico e francês); o sentimento de superioridade em relação às ex-colónias, hoje vistas como "Estados falhados" que precisam de toda a "ajuda" que possam receber. Eu queria escrever que para nós, que temos o complexo de ex-colonizado, não há nada mais humilhante e irritante que o complexo do ex-colono.

Como eu gostava de estar a escrever que ninguém vem para Moçambique "para ajudar"! As pessoas vêm para Moçambique porque Moçambique oferece boas oportunidades de trabalho. Ambos lados saem a ganhar. Nem sequer os missionários vêm para Moçambique "para ajudar", eles vêm recrutar membros para as suas denominações na esperança de um dia chegar ao céu; a ajuda que prestam é bónus. A ideia de que um treinador de futebol vem para Moçambique "para ajudar" é paternalista e mostra que a pessoa sofre de um complexo de superioridade. Diamantino "ajudava" o Costa do Sol da mesma maneira que o Costa do Sol "ajudava" Diamantino a ter uma carreira num país que lhe era agradável!  

Eu queria estar a escrever um texto onde eu mostro exemplos da falta de seriedade do Estado português e dos jornalistas portugueses e do desporto português. Eu estava com tanta vontade de escrever esse texto!

Muitos moçambicanos sentiram-se insultados pelos pronunciamentos de Diamantino Miranda. Tendo em conta o contexto destes pronunciamentos este sentimento de injúria pode até não ser justo apesar de ser, na minha opinião, compreensível. Exatamente por saber o contexto dos pronunciamentos eu tenho pena de Diamantino Miranda, este foi um episódio provavelmente injusto para ele. Mas a vida em Moçambique é injusta há muito tempo, provavelmente desde sempre! É a vida!

A relação entre moçambicanos e portugueses é complexa quando se discute assuntos de Estado. É que se é verdade que os portugueses de hoje não podem ser culpados pelos crimes cometidos pelos vários governos de Portugal até 74, também é verdade que os moçambicanos de hoje ainda vivem as consequências dos crimes cometidos pelos vários governos de Portugal até 74. É por esta razão que a relação entre moçambicanos e portugueses fica complexa quando se discutem assuntos de Estado.

Diamantino Miranda cometeu a maior gafe da carreira dele. A consequência seria sempre ser despedido do Costa do Sol e sair de Moçambique. Em Moçambique um cidadão de nacionalidade portuguesa não pode dizer o que ele disse em público e esperar continuar a ter uma carreira pública. Eu tinha um artigo preparado sobre este assunto... e o desfecho estragou-me os planos.

A relação entre moçambicanos e portugueses é complexa quando se discutem assuntos de Estado, mas a relação entre Moçambique e Portugal não é! A relação entre Moçambique e Portugal é muito boa quando se discutem quaisquer assuntos. Esta boa relação significa que Moçambique tem de estender a todos os cidadãos portugueses em território nacional os direitos universais garantidos na nossa Constituição da República. O direito à liberdade de expressão é um destes direitos universais na nossa Constituição da República garantidos na nossa Constituição da República. Isto significa que o Estado Moçambicano não pode tratar de maneira diferente os moçambicanos e pessoas de outras nacionalidades.

Perante a denúncia da "não entrevista" de Diamantino Miranda o Ministério do Trabalho (MITRAB) e o Ministério da Juventude e Desportos resolveram que este assunto era do interesse nacional e que algo devia ser feito. Então o MITRAB revogou a autorização de trabalho do técnico e deu-lhe 48 horas para sair do país e o Ministério da Juventude e Desportos veio a público categorizar os pronunciamentos de Diamantino como "Assunto de Estado".

O MITRAB fundamentou a legalidade da sua decisão na Lei do Trabalho em artigos que regulamentam a contratação de estrangeiros em Moçambique. Pela Lei do Trabalho a decisão do MITRAB pode até ser legal. Mas, o que levou o MITRAB a revogar a autorização de trabalho foram os pronunciamentos feitos pelo técnico do Costa do Sol e é aqui que o problema se levanta. A soberania do Estado Moçambicano é exercida "segundo as formas fixadas na Constituição" sendo que o Estado subordina-se à mesma e que esta (a Constituição) prevalece sobre todas as outras leis. A Constituição da República de Moçambique prevê que "A República de Moçambique é um Estado de Direito, baseado no pluralismo de expressão, na organização política democrática, no respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais do Homem." Só esta frase significa que é ilegal tomar qualquer ação sobre seja quem for baseada na sua opinião, mas a nossa CR vai mais longe ao dizer que "todos os cidadãos têm o direito à liberdade de expressão" e que "o exercício da liberdade de expressão, que compreende nomeadamente, a faculdade de divulgar o próprio pensamento por todos os meios legais (...) não podem ser limitados por censura."

Por outras palavras a Constituição da República de Moçambique, que anula qualquer lei que a contradiz, prevê o direito a dizer o que nos apetecer sem censura e sem medo de retaliação legal. Isto é, o MITRAB não pode usar nenhuma lei para penalizar Diamantino Miranda pelo que ele disse. O penalizar legal de uma pessoa pela sua opinião é anticonstitucional! E, principalmente, penalizar estrangeiros pela sua opinião (vários moçambicanos dizem coisas parecidas aos comentários de Diamantino e nunca são penalizados pelo Estado – espero que nunca sejam) para além de inconstitucional é indicativo de xenofobia por parte do Estado Moçambicano!


Isto não é o mesmo que dizer que o uso da liberdade de expressão não tenha consequências. Diamantino Miranda pode dizer o que lhe apetecer, mas tem que arcar com as consequências disso.


Porque é que isto é importante?
Diamantino ofendeu muita gente, mesmo que essa não tivesse sido a sua intenção, mesmo que as suas palavras tenham sido tiradas do contexto. A verdade é que muitos moçambicanos sentiram-se "ofendidos como país" tal como disse o Ministério da Juventude e Desportos. Certamente que uma pessoa que causa tamanho sentimento de ofensa entre os moçambicanos não merece ficar em Moçambique a trabalhar, afinal talvez até é melhor para ele ir trabalhar para um "país sério".


A verdade é que esta reação do governo era desnecessária. A opinião pública estava contra Diamantino a partir do momento em que a "não entrevista" se tornou notícia e não há nenhum motivo para pensar que esta situação pudesse mudar. Este descontentamento generalizado iria forçar o Costa do Sol a terminar o contrato com Diamantino Miranda de uma maneira ou de outra e este não podia esperar receber uma oferta de outro clube moçambicano. Diamantino Miranda tinha os dias contados em Moçambique a partir do momento em que ele teve aquela conversa com aquele jornalista. O governo apenas tinha de esperar o caso seguir o seu curso natural e o homem acabaria voltando para sua casa. A intervenção do governo neste caso não mudou o desfecho do caso.


O que a intervenção do governo fez foi passar por cima da Constituição da República de Moçambique. Isso devia-nos preocupar a todos nós. Um cidadão de nacionalidade portuguesa que tenha ofendido o orgulho nacional é provavelmente o mais vulnerável a este tipo de inconstitucionalidades. A opinião pública é contra cidadãos portugueses que nos humilhem. Logo esta é a situação onde nós vamos reclamar menos se o governo cometer um ato inconstitucional.

 Qual é o problema em violar a Constituição para nos vermos livres de pessoas que nos humilham?
O principal problema é que é ilegal. Nós queremos que Moçambique seja um Estado de Direito, um país gerido por leis, onde estas são respeitadas, onde decisões arbitrárias não têm efeitos sobre as nossas vidas. Um Estado de Direito protege-nos a todos nós, garante-nos as mesmas oportunidades e os mesmos direitos que qualquer outra pessoa. Acima de tudo, nós em Moçambique queremos um Estado de Direito! 

Um outro problema é que "a primeira vez é a mais difícil". A primeira vez que o governo criminaliza a liberdade de expressão é a mais difícil. A partir daqui o criminalizar a liberdade de expressão vai ser cada vez mais fácil. É como diz o famoso poema:

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. 
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. 
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. 
Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. 
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.
E NÃO SOBROU NINGUÉM, Martin Niemöller

Sem liberdade de expressão não há democracia e nós nos transformamos numa ditadura. Numa ditadura nós não temos o direito de criticar o governo, mesmo que este abuse, mesmo que este nos humilhe, mesmo que este nos escravize. Numa ditadura nós temos de aguentar ou estar dispostos a lutar. Numa ditadura nós não podemos falar nem com os nossos amigos, nem com os nossos familiares. A liberdade de expressão é um dos direitos mais importantes da nossa Constituição. O facto de esta ter sido violada é extremamente preocupante e ultrapassa os comentários infelizes do Diamantino!

Agora, eu não acho que o Governo tomou esta decisão de má fé. Não me parece que o caso Diamantino Miranda tenha sido instrumentalizado como pontapé de saída para um plano maior de limitar a liberdade de expressão dos moçambicanos. O mais provável é que a fundamentação ética usada pelo governo seja de que "a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro" - isto é, apesar de Diamantino Miranda ter direito à livre expressão em Moçambique ele não tem direito a "discursos de ódio". Os comentários de Diamantino foram generalizantes e infelizes, mostraram um certo grau de sentimento de superioridade, mas não podem ser classificados como "discursos de ódio" logo, o Estado não pode mover ações legais sobre ele com base nestes comentários.

É preciso entendermos que sem igualdade não há liberdade, é preciso entendermos que só seremos verdadeiramente livres quando todos formos livres de maneira igual. Não podemos ficar complacentes perante o negar da liberdade de expressão a Diamantino porque não gostamos do que ele disse.

As relações entre cidadãos moçambicanos e cidadãos portugueses são complexas quando se discutem "assuntos de Estado", mas as relações entre Portugal e Moçambique não sofrem do mesmo mal. É importante, não só para as relações com Portugal, mas também para as relações com outros países que o nosso complexo de ex-colonizado não influencie as relações entre Estados. É importante que o Conselho Constitucional abra um inquérito sobre as decisões do Governo neste caso. É importante que se o Conselho Constitucional julgar a decisão do MITRAB inconstitucional que esta seja revogada.

Eu queria ter escrito um texto sobre os comentários infelizes de Diamantino Miranda, mas o desfecho do caso estragou-me os planos. Como moçambicana uma medida provavelmente inconstitucional por parte do meu Governo é mil vezes mais importante que os comentários mal criados de um treinador de futebol.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Para os que insistem que em Moçambique não é possível o povo pressionar pacificamente o governo a fazer certas mudanças. Hoje um presidente mulato comemorou uma das maiores vitórias de pressão pacífica de toda a história - a vitória dos negros dos EUA.

"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness." Declaração da Independência dos Estados Unidos da América 1776
(Consideramos estas verdades auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade)

"Freedom is not given; it must be earned through struggle and discipline, persistence and faith." Barack Obama 2013
(A liberdade não é dada; tem de ser ganha através da luta e disciplina, persistência e fé.)

Hoje comemora-se o 50º aniversário da "Marcha a Washington" onde Martin Luther King fez o famoso discurso "I have a Dream" marcando uma viragem na luta pela igualdade de direitos civis nos Estados Unidos da América
- hoje eu renovo as minhas esperanças para Moçambique




sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sobre o Cancro e as supostas curas cuidadosamente escondidas do público pela Indústria Farmacêutica

Ontem estava numa festa e, por acaso, lá veio a conversa “eu acho que na verdade eles já têm uma cura para o cancro, só não querem que a gente saiba porque iam perder muito dinheiro com isso” e uns minutos mais tarde a mesma pessoa disse alguma coisa sobre “prevenção”.

Esta ideia é muito comum, como também é comum a ideia de que o alimento x ou y são mais efetivos no tratamento do cancro que a quimioterapia (ou a radioterapia). Ainda hoje vi um texto sobre como o limão congelado é 10 mil vezes mais forte que a quimioterapia. O texto diz que a casca do limão tem 5 a 10 vezes mais vitamina C que o sumo do limão em si e que por isso o consumo da casca do limão tem maiores resultados que o consumo de apenas o sumo. Ora a vitamina C é uma vitamina solúvel em água o que significa que qualquer consumo em excesso do necessário para o organismo é eliminado na urina. Isto é, toda a vitamina C que não for utilizada pelas células do organismo é rapidamente eliminada. Consumir mais vitamina C para além daquela que o organismo precisa e pode processar não traz nenhum benefício extra. Não há nenhuma linha de evidência em como o consumo oral (o uso intravenoso ainda está em estudo) de vitamina C possa eliminar células cancerígenas, aliás há uma preocupação crescente de que o consumo de antioxidantes (vitaminas) possa prejudicar o tratamento do cancro. Por outras palavras não há nenhuma razão científica para acreditar que a casca do limão (congelado ou não) possa substituir a quimioterapia no tratamento do cancro.

O cancro é uma doença assustadora. É a primeira causa de morte no mundo. O tratamento é difícil e nem sempre eficaz, sendo por isso natural que as pessoas se apeguem a qualquer indício de esperança de que esta doença pode ser combatida e curada facilmente. Se pensarmos que estas “curas milagrosas” são normalmente “naturais” e aparentemente inócuas podemos argumentar que não há nenhuma razão para “perder tempo” a tentar desmascara-las; afinal se todas as pessoas agora começassem a temperar a comida com casca de limão não lhes ia fazer mal nenhum e elas sentir-se-iam melhor, mais protegidas e seguras.

Eu tenho dois problemas com esse ponto de vista.
Primeiro eu acho que não se deve mentir ao público mesmo que isso faça com que as pessoas se “sintam melhor e mais seguras”. Eu acho que as pessoas merecem saber a verdade e também acho que a ideia de que as pessoas precisam de histórias da carochinha para dormir sossegadas é infantilizar o público o que é uma grande falta de respeito. O público em geral não é menos capaz que eu de lidar com a realidade por muito dura que esta seja.
Segundo porque isto é potencialmente fatal. Se uma pessoa está sossegada com a ideia de que temperar a comida com raspa de casca de limão lhe vai proteger de doenças vai demorar mais tempo a ir ao médico. Essa demora pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Por outras palavras estes “remédios milagrosos” são uma FRAUDE. Eu acho que é extremamente antiético brincar com os sentimentos e medos das pessoas desta maneira e que os que inventam estas “curas mágicas” deviam sofrer consequências legais sérias.

Então vamos lá a factos.
1)   O cancro não é uma doença, mas sim várias.
Cancro é o nome que se usa para identificar um conjunto de doenças genéticas que causam o crescimento descontrolado de células e a dispersão das mesmas. Para além de um cancro da mama ser diferente de um cancro do pulmão, os cancros da mama (e os do pulmão) são diferentes entre si tendo causas e características diferentes e em alguns casos terapias e tratamentos diferentes.
Isto faz com que seja extremamente difícil e improvável encontrar uma “bala de ouro” para curar ou prevenir o cancro.
 
2)   Os cancros são o grupo de doenças mais estudado do mundo.
Sendo a principal causa de morte a nível mundial é normal que haja muito financiamento para investigação sobre as causas e possíveis curas dos vários cancros. No momento em que escrevo existem 2.816.847,00 (dois milhões, oitocentos e dezasseis mil, oitocentos e quarenta e sete) estudos publicados sobre cancro e este número sobe diariamente. Em termos de comparação existem:
·      1.855.016,00 (um milhão, oitocentos e cinquenta e cinco mil e dezasseis) sobre doenças cardiovasculares;
·      1.056.864,00 (um milhão e cinquenta e seis mil, oitocentos e sessenta e quatro) sobre doenças respiratórias;
·      256.283,00 (duzentos e cinquenta e seis mil, duzentos e oitenta e três) sobre o HIV;
·      204.378,00 (duzentos e quatro mil, trezentos e setenta e oito) sobre a tuberculose;
·      181.297,00 (cento e oitenta e um mil, duzentos e noventa e sete) sobre a obesidade;
·      73.236,00 (setenta e três mil, duzentos e trinta e seis) sobre a gripe;
·      66.292,00 (sessenta e seis mil, duzentos e noventa e dois) sobre a malária.
 
A ideia de que há uma restrição no estudo do cancro é completamente fictícia. Aliás a investigação sobre os processos cancerígenos é uma das áreas mais seguras das ciências biomédicas porque há sempre financiamento. Por causa disto muitos laboratórios dedicam pelo menos uma parte do seu tempo a estudar aspetos relacionados com o cancro.
 
3)   Novos tratamentos e terapias estão sempre a “sair” e são rapidamente empregues pelos médicos e pelos Sistemas Nacionais de Saúde no mundo inteiro.
As diretrizes para o tratamento do cancro são dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS ou WHO) e outras instituições pares desta como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos da América. Estas diretrizes são revistas regularmente e corrigidas no sentido de refletirem as melhores praticas baseadas em evidencia. Por outras palavras, consoante os estudos vão sendo publicados as diretrizes vão sendo atualizadas.
 
4)   O diagnóstico de cancro é cada vez menos sinónimo de “morte certa” – os tratamentos e terapias funcionam cada vez melhor.
Nos EUA duas em cada três pessoas diagnosticadas com cancro sobrevivem cinco ou mais anos ao diagnóstico. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico maior a probabilidade da eficácia do tratamento. Alguns cancros têm um índice de cura elevadíssimo se o tratamento adequado for aplicado.
 
5)   Não é possível erradicar o cancro, logo não nunca vão acabar os doentes com cancro, logo a indústria farmacêutica não tem nada a perder com o fabrico de melhores tratamentos – pelo contrário.
Mais de 30% das mortes causadas pelo cancro podem ser evitadas com a modificação de hábitos e estilo de vida, mas o conjunto de doenças em si é neste momento impossível de erradicar. O cancro é uma doença complexa com múltiplas causas, algumas das quais não é possível influenciar como por exemplo a disposição genética para certos tipos de cancros (uma pessoa que tenha um gene que aumente o seu risco de desenvolver um cancro). Por outras palavras 70% dos cancros não são evitáveis e vão continuar a constituir um mercado fértil para os fármacos anticancerígenos no futuro previsível.
 
6)   A dinâmica do financiamento público para o estudo de doenças faz com que seja extremamente pouco provável que cientistas escondam descobertas de curas “milagrosas”.
A maior parte dos estudos iniciais para tratamentos são feitos em laboratórios com dinheiro público (universidades e institutos de investigação). A industria farmacêutica só entra na fase final de um produto. Logo a maior parte das “balas de ouro” são descobertas fora da industria farmacêutica e depois vendidas a esta.
Em ciência tem dinheiro quem publica estudos. Quanto mais estudos um laboratório publicar mais financiamento tem. Mas além disto a ciência é uma área de grandes egos. As pessoas são vaidosas e concorrem umas com as outras para mostrar quem é melhor, quem tem a ideia mais brilhante, quem pensou na solução mais imaginativa, quem chegou à resposta primeiro. O ambiente científico é uma espécie de disputa constante pela fama e financiamento. Além disso o elevado número de pessoas a trabalhar neste problema implica que haja uma corrida constante entre os vários laboratórios, isto resulta na publicação, às vezes até precoce, de qualquer conjunto de dados com alguma significância. Por outras palavras quando alguém perceber que está diante da “bala de ouro” 90% da informação já foi publicada e essa pessoa corre o risco sério de perder o Nobel se não publicar os 10% que faltam imediatamente.
Isto significa que NENHUM cientista no mundo vai ficar com a cura para o cancro guardada na gaveta. 
 
7)   A história mostra que a humanidade está disposta a erradicar doenças ou pelo menos a diminuir consideravelmente o seu impacto.
A varíola foi completamente erradicada com o uso da vacina. A poliomielite vai no mesmo caminho. O impacto de doenças como a papeira, o sarampo, a hepatite A e B, a difteria, o tétano, a pneumonia, a tuberculose e a varicela, de entre outras, foi diminuído consideravelmente nas últimas décadas. A nova vacina para a infecção com HPV (introduzida em 2008) mostra que a sociedade atual está disposta a fazer novas campanhas de vacinação que já estão a resultar numa redução significativa do número de novos cancros cervicais (um dos que mata mais no mundo).
Para além da prevenção com vacinas temos todos os tratamentos efetivos que foram desenvolvidos nos últimos 50 anos, tornando doenças como a sífilis (o HIV do passado) em quase insignificantes.
Nós não vamos nunca conseguir erradicar todas as doenças. Os parasitas que nos causam doença evoluem connosco e vão sempre aparecendo novas estirpes. As doenças não comunicativas são quase impossíveis de erradicar pois fazem parte do desgaste natural do corpo humano com a idade. Enquanto houverem seres humanos a industria farmacêutica vai ter clientes. Eles não precisam de inventar planos maquiavélicos para fazerem dinheiro, a natureza está do lado deles.


Por outras palavras o uso das “curas milagrosas” que atrasem a ida ao médico ou substituam o tratamento convencional é uma causa direta para o aumento da morbilidade e mortalidade dos cancros, para além de ser uma fraude que é um crime. Estas “curas milagrosas” não são inócuas como muitos pensam e servem para diretamente aumentar o sofrimento de milhões de pessoas no mundo.

Para além das “curas milagrosas” farmacologicamente inócuas existem também “remédios” que podem piorar a situação e causar outras doenças. Estas são ainda mais perigosas e devem ser denunciadas imediatamente.


  • ·      “Trata todos os tipos de cancro.”
  • ·      “O cancro da pele desaparece.”
  • ·      “Diminui tumores malignos.”
  • ·      “Não é tóxico.”
  • ·      “Não causa doença.”
  • ·      “Evita cirurgias, quimioterapia, radioterapia ou outros tratamentos convencionais.”
  • ·      “Trata cancros facilmente e sem dor.”


  • ·      Afirmações de que o produto é uma forma rápida e efetiva de “curar tudo” ou diagnosticar uma grande variedade de doenças.
  • ·      Sugestões de que o produto pode curar doenças sérias ou incuráveis.
  • ·      Afirmações do tipo “avanço científico”, “cura milagrosa”, “ingrediente secreto” ou “remédio ancestral”.
  • ·      Termos impressionantes do tipo “ponto de estimulação da fome” e “termogénise” em produtos para emagrecer.
  • ·      Afirmações de que o produto é seguro por ser “natural”.
  • ·      Casos não documentados de pacientes ou testemunhos pessoais de consumidores ou médicos que falam de resultados incríveis.
  • ·      Afirmações de oferta limitada ou da necessidade de pagamento adiantado.
  • ·      Promessas de risco-zero ou garantias de devolução do dinheiro.
  • ·      Promessas de uma cura fácil para problemas como a obesidade, perca de cabelo ou impotência.


Para mais informação ver: