segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O texto que eu gostaria de estar a escrever

"Eu desaprovo o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo."
 Evelyn Beatrice Hall

Diamantino Miranda meteu os pés pelas mãos e cometeu a maior gafe da sua carreira até hoje. Na verdade eu sinto pena dele, ele exaltou-se e está a pagar por isso.

Quando eu ouvi falar da já famosa "não entrevista" comecei logo a pensar no texto que queria escrever sobre o assunto. Os argumentos estavam todos alinhavados à espera, apenas, do desfecho da questão. Quando o desfecho chegou, estragou-me os planos.

Eu queria estar a escrever sobre como a maior parte dos moçambicanos vão reagir mal aos comentários de Diamantino, não porque estes são novidade, mas porque estes foram proferidos por um cidadão de nacionalidade portuguesa. Eu queria estar a escrever sobre a relação difícil entre cidadãos moçambicanos e portugueses quando se trata de assuntos de Estado. Eu queria estar a explicar porquê os comentários de Diamantino soam a insulto nacional mesmo que essa não tenha sido a sua intenção. Queria estar a explicar que todos nós, moçambicanos, podemos estar sempre a dizer que o nosso país não é sério, que os nossos jornalistas não são sérios, mas que um estrangeiro e principalmente um cidadão português não pode dizer o mesmo em público (mídia e não restaurantes, porque nos restaurantes há muita gente a dizer isso sem consequências) e esperar ter uma carreira em Moçambique.

Eu gostava de estar a escrever um texto sobre como o complexo de ex-colonizado é real e tem consequências reais. Eu gostava de estar a escrever um texto onde eu explico porque é que Moçambique (ou qualquer outra ex-colónia africana) é diferente do Brasil. É que há quem não entenda que o Brasil passou de colónia a metrópole e teve a sua independência em 1822, quase à 200 anos atrás. Para quem não consegue fazer contas isto significa que ninguém no Brasil de hoje viveu o colonialismo enquanto nós em Moçambique ou vivemos ou somos 1ª ou 2ª geração independente. Para nós, moçambicanos, o colonialismo não é algo que lemos no livro de História, para nós o colonialismo são as histórias humilhantes vividas ou contadas em primeira mão pelas pessoas que nos são mais queridas.

Eu queria estar a explicar que apesar de Moçambique ser um país com um índice de corrupção elevado isso não significa que nós somos todos corruptos. Não porque eu acho que Diamantino Miranda acredita que TODOS os moçambicanos sejam corruptos, mas porque uma vez que se disse "vocês são todos ladrões" é preciso dizer o contrário. Nós em Moçambique não somos todos ladrões. Os nossos jornalistas não são todos vendidos. Os nossos políticos não são todos corruptos. Moçambique tem gente honesta e gente desonesta. A grande maioria dos moçambicanos são honestos e não merecem ser agrupados em generalizações obtusas por pessoas frustradas com o resultado de um jogo de futebol.

Eu queria estar a escrever um texto onde eu falo do complexo recíproco, o complexo do ex-colono. As características deste complexo são o insistir no distanciamento pessoal ao colonialismo expresso em frases como "Eu nunca colonizei ninguém!"; o insistir na natureza benéfica do colonialismo português (a construção das infraestruturas; a maravilhosa e internacional língua portuguesa; a diferença com os colonialismos britânico e francês); o sentimento de superioridade em relação às ex-colónias, hoje vistas como "Estados falhados" que precisam de toda a "ajuda" que possam receber. Eu queria escrever que para nós, que temos o complexo de ex-colonizado, não há nada mais humilhante e irritante que o complexo do ex-colono.

Como eu gostava de estar a escrever que ninguém vem para Moçambique "para ajudar"! As pessoas vêm para Moçambique porque Moçambique oferece boas oportunidades de trabalho. Ambos lados saem a ganhar. Nem sequer os missionários vêm para Moçambique "para ajudar", eles vêm recrutar membros para as suas denominações na esperança de um dia chegar ao céu; a ajuda que prestam é bónus. A ideia de que um treinador de futebol vem para Moçambique "para ajudar" é paternalista e mostra que a pessoa sofre de um complexo de superioridade. Diamantino "ajudava" o Costa do Sol da mesma maneira que o Costa do Sol "ajudava" Diamantino a ter uma carreira num país que lhe era agradável!  

Eu queria estar a escrever um texto onde eu mostro exemplos da falta de seriedade do Estado português e dos jornalistas portugueses e do desporto português. Eu estava com tanta vontade de escrever esse texto!

Muitos moçambicanos sentiram-se insultados pelos pronunciamentos de Diamantino Miranda. Tendo em conta o contexto destes pronunciamentos este sentimento de injúria pode até não ser justo apesar de ser, na minha opinião, compreensível. Exatamente por saber o contexto dos pronunciamentos eu tenho pena de Diamantino Miranda, este foi um episódio provavelmente injusto para ele. Mas a vida em Moçambique é injusta há muito tempo, provavelmente desde sempre! É a vida!

A relação entre moçambicanos e portugueses é complexa quando se discute assuntos de Estado. É que se é verdade que os portugueses de hoje não podem ser culpados pelos crimes cometidos pelos vários governos de Portugal até 74, também é verdade que os moçambicanos de hoje ainda vivem as consequências dos crimes cometidos pelos vários governos de Portugal até 74. É por esta razão que a relação entre moçambicanos e portugueses fica complexa quando se discutem assuntos de Estado.

Diamantino Miranda cometeu a maior gafe da carreira dele. A consequência seria sempre ser despedido do Costa do Sol e sair de Moçambique. Em Moçambique um cidadão de nacionalidade portuguesa não pode dizer o que ele disse em público e esperar continuar a ter uma carreira pública. Eu tinha um artigo preparado sobre este assunto... e o desfecho estragou-me os planos.

A relação entre moçambicanos e portugueses é complexa quando se discutem assuntos de Estado, mas a relação entre Moçambique e Portugal não é! A relação entre Moçambique e Portugal é muito boa quando se discutem quaisquer assuntos. Esta boa relação significa que Moçambique tem de estender a todos os cidadãos portugueses em território nacional os direitos universais garantidos na nossa Constituição da República. O direito à liberdade de expressão é um destes direitos universais na nossa Constituição da República garantidos na nossa Constituição da República. Isto significa que o Estado Moçambicano não pode tratar de maneira diferente os moçambicanos e pessoas de outras nacionalidades.

Perante a denúncia da "não entrevista" de Diamantino Miranda o Ministério do Trabalho (MITRAB) e o Ministério da Juventude e Desportos resolveram que este assunto era do interesse nacional e que algo devia ser feito. Então o MITRAB revogou a autorização de trabalho do técnico e deu-lhe 48 horas para sair do país e o Ministério da Juventude e Desportos veio a público categorizar os pronunciamentos de Diamantino como "Assunto de Estado".

O MITRAB fundamentou a legalidade da sua decisão na Lei do Trabalho em artigos que regulamentam a contratação de estrangeiros em Moçambique. Pela Lei do Trabalho a decisão do MITRAB pode até ser legal. Mas, o que levou o MITRAB a revogar a autorização de trabalho foram os pronunciamentos feitos pelo técnico do Costa do Sol e é aqui que o problema se levanta. A soberania do Estado Moçambicano é exercida "segundo as formas fixadas na Constituição" sendo que o Estado subordina-se à mesma e que esta (a Constituição) prevalece sobre todas as outras leis. A Constituição da República de Moçambique prevê que "A República de Moçambique é um Estado de Direito, baseado no pluralismo de expressão, na organização política democrática, no respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais do Homem." Só esta frase significa que é ilegal tomar qualquer ação sobre seja quem for baseada na sua opinião, mas a nossa CR vai mais longe ao dizer que "todos os cidadãos têm o direito à liberdade de expressão" e que "o exercício da liberdade de expressão, que compreende nomeadamente, a faculdade de divulgar o próprio pensamento por todos os meios legais (...) não podem ser limitados por censura."

Por outras palavras a Constituição da República de Moçambique, que anula qualquer lei que a contradiz, prevê o direito a dizer o que nos apetecer sem censura e sem medo de retaliação legal. Isto é, o MITRAB não pode usar nenhuma lei para penalizar Diamantino Miranda pelo que ele disse. O penalizar legal de uma pessoa pela sua opinião é anticonstitucional! E, principalmente, penalizar estrangeiros pela sua opinião (vários moçambicanos dizem coisas parecidas aos comentários de Diamantino e nunca são penalizados pelo Estado – espero que nunca sejam) para além de inconstitucional é indicativo de xenofobia por parte do Estado Moçambicano!


Isto não é o mesmo que dizer que o uso da liberdade de expressão não tenha consequências. Diamantino Miranda pode dizer o que lhe apetecer, mas tem que arcar com as consequências disso.


Porque é que isto é importante?
Diamantino ofendeu muita gente, mesmo que essa não tivesse sido a sua intenção, mesmo que as suas palavras tenham sido tiradas do contexto. A verdade é que muitos moçambicanos sentiram-se "ofendidos como país" tal como disse o Ministério da Juventude e Desportos. Certamente que uma pessoa que causa tamanho sentimento de ofensa entre os moçambicanos não merece ficar em Moçambique a trabalhar, afinal talvez até é melhor para ele ir trabalhar para um "país sério".


A verdade é que esta reação do governo era desnecessária. A opinião pública estava contra Diamantino a partir do momento em que a "não entrevista" se tornou notícia e não há nenhum motivo para pensar que esta situação pudesse mudar. Este descontentamento generalizado iria forçar o Costa do Sol a terminar o contrato com Diamantino Miranda de uma maneira ou de outra e este não podia esperar receber uma oferta de outro clube moçambicano. Diamantino Miranda tinha os dias contados em Moçambique a partir do momento em que ele teve aquela conversa com aquele jornalista. O governo apenas tinha de esperar o caso seguir o seu curso natural e o homem acabaria voltando para sua casa. A intervenção do governo neste caso não mudou o desfecho do caso.


O que a intervenção do governo fez foi passar por cima da Constituição da República de Moçambique. Isso devia-nos preocupar a todos nós. Um cidadão de nacionalidade portuguesa que tenha ofendido o orgulho nacional é provavelmente o mais vulnerável a este tipo de inconstitucionalidades. A opinião pública é contra cidadãos portugueses que nos humilhem. Logo esta é a situação onde nós vamos reclamar menos se o governo cometer um ato inconstitucional.

 Qual é o problema em violar a Constituição para nos vermos livres de pessoas que nos humilham?
O principal problema é que é ilegal. Nós queremos que Moçambique seja um Estado de Direito, um país gerido por leis, onde estas são respeitadas, onde decisões arbitrárias não têm efeitos sobre as nossas vidas. Um Estado de Direito protege-nos a todos nós, garante-nos as mesmas oportunidades e os mesmos direitos que qualquer outra pessoa. Acima de tudo, nós em Moçambique queremos um Estado de Direito! 

Um outro problema é que "a primeira vez é a mais difícil". A primeira vez que o governo criminaliza a liberdade de expressão é a mais difícil. A partir daqui o criminalizar a liberdade de expressão vai ser cada vez mais fácil. É como diz o famoso poema:

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. 
Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. 
Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. 
Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. 
Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.
E NÃO SOBROU NINGUÉM, Martin Niemöller

Sem liberdade de expressão não há democracia e nós nos transformamos numa ditadura. Numa ditadura nós não temos o direito de criticar o governo, mesmo que este abuse, mesmo que este nos humilhe, mesmo que este nos escravize. Numa ditadura nós temos de aguentar ou estar dispostos a lutar. Numa ditadura nós não podemos falar nem com os nossos amigos, nem com os nossos familiares. A liberdade de expressão é um dos direitos mais importantes da nossa Constituição. O facto de esta ter sido violada é extremamente preocupante e ultrapassa os comentários infelizes do Diamantino!

Agora, eu não acho que o Governo tomou esta decisão de má fé. Não me parece que o caso Diamantino Miranda tenha sido instrumentalizado como pontapé de saída para um plano maior de limitar a liberdade de expressão dos moçambicanos. O mais provável é que a fundamentação ética usada pelo governo seja de que "a minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro" - isto é, apesar de Diamantino Miranda ter direito à livre expressão em Moçambique ele não tem direito a "discursos de ódio". Os comentários de Diamantino foram generalizantes e infelizes, mostraram um certo grau de sentimento de superioridade, mas não podem ser classificados como "discursos de ódio" logo, o Estado não pode mover ações legais sobre ele com base nestes comentários.

É preciso entendermos que sem igualdade não há liberdade, é preciso entendermos que só seremos verdadeiramente livres quando todos formos livres de maneira igual. Não podemos ficar complacentes perante o negar da liberdade de expressão a Diamantino porque não gostamos do que ele disse.

As relações entre cidadãos moçambicanos e cidadãos portugueses são complexas quando se discutem "assuntos de Estado", mas as relações entre Portugal e Moçambique não sofrem do mesmo mal. É importante, não só para as relações com Portugal, mas também para as relações com outros países que o nosso complexo de ex-colonizado não influencie as relações entre Estados. É importante que o Conselho Constitucional abra um inquérito sobre as decisões do Governo neste caso. É importante que se o Conselho Constitucional julgar a decisão do MITRAB inconstitucional que esta seja revogada.

Eu queria ter escrito um texto sobre os comentários infelizes de Diamantino Miranda, mas o desfecho do caso estragou-me os planos. Como moçambicana uma medida provavelmente inconstitucional por parte do meu Governo é mil vezes mais importante que os comentários mal criados de um treinador de futebol.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Para os que insistem que em Moçambique não é possível o povo pressionar pacificamente o governo a fazer certas mudanças. Hoje um presidente mulato comemorou uma das maiores vitórias de pressão pacífica de toda a história - a vitória dos negros dos EUA.

"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness." Declaração da Independência dos Estados Unidos da América 1776
(Consideramos estas verdades auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade)

"Freedom is not given; it must be earned through struggle and discipline, persistence and faith." Barack Obama 2013
(A liberdade não é dada; tem de ser ganha através da luta e disciplina, persistência e fé.)

Hoje comemora-se o 50º aniversário da "Marcha a Washington" onde Martin Luther King fez o famoso discurso "I have a Dream" marcando uma viragem na luta pela igualdade de direitos civis nos Estados Unidos da América
- hoje eu renovo as minhas esperanças para Moçambique




sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sobre o Cancro e as supostas curas cuidadosamente escondidas do público pela Indústria Farmacêutica

Ontem estava numa festa e, por acaso, lá veio a conversa “eu acho que na verdade eles já têm uma cura para o cancro, só não querem que a gente saiba porque iam perder muito dinheiro com isso” e uns minutos mais tarde a mesma pessoa disse alguma coisa sobre “prevenção”.

Esta ideia é muito comum, como também é comum a ideia de que o alimento x ou y são mais efetivos no tratamento do cancro que a quimioterapia (ou a radioterapia). Ainda hoje vi um texto sobre como o limão congelado é 10 mil vezes mais forte que a quimioterapia. O texto diz que a casca do limão tem 5 a 10 vezes mais vitamina C que o sumo do limão em si e que por isso o consumo da casca do limão tem maiores resultados que o consumo de apenas o sumo. Ora a vitamina C é uma vitamina solúvel em água o que significa que qualquer consumo em excesso do necessário para o organismo é eliminado na urina. Isto é, toda a vitamina C que não for utilizada pelas células do organismo é rapidamente eliminada. Consumir mais vitamina C para além daquela que o organismo precisa e pode processar não traz nenhum benefício extra. Não há nenhuma linha de evidência em como o consumo oral (o uso intravenoso ainda está em estudo) de vitamina C possa eliminar células cancerígenas, aliás há uma preocupação crescente de que o consumo de antioxidantes (vitaminas) possa prejudicar o tratamento do cancro. Por outras palavras não há nenhuma razão científica para acreditar que a casca do limão (congelado ou não) possa substituir a quimioterapia no tratamento do cancro.

O cancro é uma doença assustadora. É a primeira causa de morte no mundo. O tratamento é difícil e nem sempre eficaz, sendo por isso natural que as pessoas se apeguem a qualquer indício de esperança de que esta doença pode ser combatida e curada facilmente. Se pensarmos que estas “curas milagrosas” são normalmente “naturais” e aparentemente inócuas podemos argumentar que não há nenhuma razão para “perder tempo” a tentar desmascara-las; afinal se todas as pessoas agora começassem a temperar a comida com casca de limão não lhes ia fazer mal nenhum e elas sentir-se-iam melhor, mais protegidas e seguras.

Eu tenho dois problemas com esse ponto de vista.
Primeiro eu acho que não se deve mentir ao público mesmo que isso faça com que as pessoas se “sintam melhor e mais seguras”. Eu acho que as pessoas merecem saber a verdade e também acho que a ideia de que as pessoas precisam de histórias da carochinha para dormir sossegadas é infantilizar o público o que é uma grande falta de respeito. O público em geral não é menos capaz que eu de lidar com a realidade por muito dura que esta seja.
Segundo porque isto é potencialmente fatal. Se uma pessoa está sossegada com a ideia de que temperar a comida com raspa de casca de limão lhe vai proteger de doenças vai demorar mais tempo a ir ao médico. Essa demora pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Por outras palavras estes “remédios milagrosos” são uma FRAUDE. Eu acho que é extremamente antiético brincar com os sentimentos e medos das pessoas desta maneira e que os que inventam estas “curas mágicas” deviam sofrer consequências legais sérias.

Então vamos lá a factos.
1)   O cancro não é uma doença, mas sim várias.
Cancro é o nome que se usa para identificar um conjunto de doenças genéticas que causam o crescimento descontrolado de células e a dispersão das mesmas. Para além de um cancro da mama ser diferente de um cancro do pulmão, os cancros da mama (e os do pulmão) são diferentes entre si tendo causas e características diferentes e em alguns casos terapias e tratamentos diferentes.
Isto faz com que seja extremamente difícil e improvável encontrar uma “bala de ouro” para curar ou prevenir o cancro.
 
2)   Os cancros são o grupo de doenças mais estudado do mundo.
Sendo a principal causa de morte a nível mundial é normal que haja muito financiamento para investigação sobre as causas e possíveis curas dos vários cancros. No momento em que escrevo existem 2.816.847,00 (dois milhões, oitocentos e dezasseis mil, oitocentos e quarenta e sete) estudos publicados sobre cancro e este número sobe diariamente. Em termos de comparação existem:
·      1.855.016,00 (um milhão, oitocentos e cinquenta e cinco mil e dezasseis) sobre doenças cardiovasculares;
·      1.056.864,00 (um milhão e cinquenta e seis mil, oitocentos e sessenta e quatro) sobre doenças respiratórias;
·      256.283,00 (duzentos e cinquenta e seis mil, duzentos e oitenta e três) sobre o HIV;
·      204.378,00 (duzentos e quatro mil, trezentos e setenta e oito) sobre a tuberculose;
·      181.297,00 (cento e oitenta e um mil, duzentos e noventa e sete) sobre a obesidade;
·      73.236,00 (setenta e três mil, duzentos e trinta e seis) sobre a gripe;
·      66.292,00 (sessenta e seis mil, duzentos e noventa e dois) sobre a malária.
 
A ideia de que há uma restrição no estudo do cancro é completamente fictícia. Aliás a investigação sobre os processos cancerígenos é uma das áreas mais seguras das ciências biomédicas porque há sempre financiamento. Por causa disto muitos laboratórios dedicam pelo menos uma parte do seu tempo a estudar aspetos relacionados com o cancro.
 
3)   Novos tratamentos e terapias estão sempre a “sair” e são rapidamente empregues pelos médicos e pelos Sistemas Nacionais de Saúde no mundo inteiro.
As diretrizes para o tratamento do cancro são dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS ou WHO) e outras instituições pares desta como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos da América. Estas diretrizes são revistas regularmente e corrigidas no sentido de refletirem as melhores praticas baseadas em evidencia. Por outras palavras, consoante os estudos vão sendo publicados as diretrizes vão sendo atualizadas.
 
4)   O diagnóstico de cancro é cada vez menos sinónimo de “morte certa” – os tratamentos e terapias funcionam cada vez melhor.
Nos EUA duas em cada três pessoas diagnosticadas com cancro sobrevivem cinco ou mais anos ao diagnóstico. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico maior a probabilidade da eficácia do tratamento. Alguns cancros têm um índice de cura elevadíssimo se o tratamento adequado for aplicado.
 
5)   Não é possível erradicar o cancro, logo não nunca vão acabar os doentes com cancro, logo a indústria farmacêutica não tem nada a perder com o fabrico de melhores tratamentos – pelo contrário.
Mais de 30% das mortes causadas pelo cancro podem ser evitadas com a modificação de hábitos e estilo de vida, mas o conjunto de doenças em si é neste momento impossível de erradicar. O cancro é uma doença complexa com múltiplas causas, algumas das quais não é possível influenciar como por exemplo a disposição genética para certos tipos de cancros (uma pessoa que tenha um gene que aumente o seu risco de desenvolver um cancro). Por outras palavras 70% dos cancros não são evitáveis e vão continuar a constituir um mercado fértil para os fármacos anticancerígenos no futuro previsível.
 
6)   A dinâmica do financiamento público para o estudo de doenças faz com que seja extremamente pouco provável que cientistas escondam descobertas de curas “milagrosas”.
A maior parte dos estudos iniciais para tratamentos são feitos em laboratórios com dinheiro público (universidades e institutos de investigação). A industria farmacêutica só entra na fase final de um produto. Logo a maior parte das “balas de ouro” são descobertas fora da industria farmacêutica e depois vendidas a esta.
Em ciência tem dinheiro quem publica estudos. Quanto mais estudos um laboratório publicar mais financiamento tem. Mas além disto a ciência é uma área de grandes egos. As pessoas são vaidosas e concorrem umas com as outras para mostrar quem é melhor, quem tem a ideia mais brilhante, quem pensou na solução mais imaginativa, quem chegou à resposta primeiro. O ambiente científico é uma espécie de disputa constante pela fama e financiamento. Além disso o elevado número de pessoas a trabalhar neste problema implica que haja uma corrida constante entre os vários laboratórios, isto resulta na publicação, às vezes até precoce, de qualquer conjunto de dados com alguma significância. Por outras palavras quando alguém perceber que está diante da “bala de ouro” 90% da informação já foi publicada e essa pessoa corre o risco sério de perder o Nobel se não publicar os 10% que faltam imediatamente.
Isto significa que NENHUM cientista no mundo vai ficar com a cura para o cancro guardada na gaveta. 
 
7)   A história mostra que a humanidade está disposta a erradicar doenças ou pelo menos a diminuir consideravelmente o seu impacto.
A varíola foi completamente erradicada com o uso da vacina. A poliomielite vai no mesmo caminho. O impacto de doenças como a papeira, o sarampo, a hepatite A e B, a difteria, o tétano, a pneumonia, a tuberculose e a varicela, de entre outras, foi diminuído consideravelmente nas últimas décadas. A nova vacina para a infecção com HPV (introduzida em 2008) mostra que a sociedade atual está disposta a fazer novas campanhas de vacinação que já estão a resultar numa redução significativa do número de novos cancros cervicais (um dos que mata mais no mundo).
Para além da prevenção com vacinas temos todos os tratamentos efetivos que foram desenvolvidos nos últimos 50 anos, tornando doenças como a sífilis (o HIV do passado) em quase insignificantes.
Nós não vamos nunca conseguir erradicar todas as doenças. Os parasitas que nos causam doença evoluem connosco e vão sempre aparecendo novas estirpes. As doenças não comunicativas são quase impossíveis de erradicar pois fazem parte do desgaste natural do corpo humano com a idade. Enquanto houverem seres humanos a industria farmacêutica vai ter clientes. Eles não precisam de inventar planos maquiavélicos para fazerem dinheiro, a natureza está do lado deles.


Por outras palavras o uso das “curas milagrosas” que atrasem a ida ao médico ou substituam o tratamento convencional é uma causa direta para o aumento da morbilidade e mortalidade dos cancros, para além de ser uma fraude que é um crime. Estas “curas milagrosas” não são inócuas como muitos pensam e servem para diretamente aumentar o sofrimento de milhões de pessoas no mundo.

Para além das “curas milagrosas” farmacologicamente inócuas existem também “remédios” que podem piorar a situação e causar outras doenças. Estas são ainda mais perigosas e devem ser denunciadas imediatamente.


  • ·      “Trata todos os tipos de cancro.”
  • ·      “O cancro da pele desaparece.”
  • ·      “Diminui tumores malignos.”
  • ·      “Não é tóxico.”
  • ·      “Não causa doença.”
  • ·      “Evita cirurgias, quimioterapia, radioterapia ou outros tratamentos convencionais.”
  • ·      “Trata cancros facilmente e sem dor.”


  • ·      Afirmações de que o produto é uma forma rápida e efetiva de “curar tudo” ou diagnosticar uma grande variedade de doenças.
  • ·      Sugestões de que o produto pode curar doenças sérias ou incuráveis.
  • ·      Afirmações do tipo “avanço científico”, “cura milagrosa”, “ingrediente secreto” ou “remédio ancestral”.
  • ·      Termos impressionantes do tipo “ponto de estimulação da fome” e “termogénise” em produtos para emagrecer.
  • ·      Afirmações de que o produto é seguro por ser “natural”.
  • ·      Casos não documentados de pacientes ou testemunhos pessoais de consumidores ou médicos que falam de resultados incríveis.
  • ·      Afirmações de oferta limitada ou da necessidade de pagamento adiantado.
  • ·      Promessas de risco-zero ou garantias de devolução do dinheiro.
  • ·      Promessas de uma cura fácil para problemas como a obesidade, perca de cabelo ou impotência.


Para mais informação ver:

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Fala-se de uma nova guerra civil em Moçambique

Ontem o Brigadeiro Jerónimo Malagueta disse que “o país está doente”. Os médicos estiveram a dizer a mesma coisa até à uma semana atrás. Antes destes já tínhamos ouvido declarações idênticas de vários grupos e entidades nacionais. Até o PNUD nos pôs na antepenúltima posição a nível mundial no Índice de Desenvolvimento Humano. Temos que admitir que “alguma coisa está podre no Estado de Moçambique” para parafrasear o Shakespeare.

Perante esta realidade e perante as ameaças da Renamo contra o governo do dia há quem diga que é chegada a altura de uma nova guerra em Moçambique. Chega-se mesmo a dizer que uma guerra, com toda a destruição que dela advir, é preferível ao estado atual de miséria e pobreza generalizada, acompanhada por um governo com uma imagem cada vez mais autoritária e arrogante.

Suponhamos que as seguintes premissas foram verificadas e correspondem à realidade:
a) a Frelimo não vai aceitar sair do poder pelo processo democrático
b) a maioria do povo moçambicano quer que a Frelimo saia do poder
c) a Renamo vai lutar pelos interesses da maioria do povo moçambicano
d) a maioria do povo moçambicano quer que a Renamo faça a guerra pelos seus interesses
Neste cenário pode-se construir um argumento forte em como uma guerra, para além de necessária, seria justa.

Os objectivos desta guerra seriam:
- tirar a Frelimo do poder
- ter uma democracia mais inclusiva, onde o partido no poder é mais tolerante à oposição e menos autoritário
- construir uma sociedade com politicas de gestão do património que a tornem mais justa
- acabar com a pobreza e miséria no país, por outras palavras melhorar a qualidade de vida das pessoas

Tendo em conta estes objectivos, as perguntas que se levantam são:

11)    A Renamo tem condições para ganhar ao governo numa ofensiva militar?
Esta pergunta é importante porque se a Renamo perde esta guerra nós passamos a ter um governo da Frelimo com todos os defeitos que tem hoje suportados pela certeza de que consegue ganhar à Renamo. Se achamos que este governo é autoritário e arrogante hoje, imaginem depois de terem ganho uma guerra!

Parece haver uma ideia por aí de que a Renamo tem um exército sem muitos recursos mas com homens experientes em combate. Por outro lado acredita-se que o governo tenha um exército com consideravelmente mais recursos mas cheio de “miúdos” sem experiência nem disciplina. Eu não sei até que ponto estas imagens coletivas de ambas forças correspondem à realidade. Mas eu sei que a guerra anterior durou 16 anos, não 6 meses, e foi resolvida com um acordo de paz, não com uma vitória de um dos grupos. O que significa que haviam pessoas com capacidade militar de ambos os lados. Se os generais da Renamo ainda estão vivos, então os da Frelimo também estão. Assim acreditar hoje que a Frelimo perdeu a capacidade de fazer guerra e a Renamo não, parece-me um pouco precipitado e inconsequente.

Do ponto de vista de financiamento para a guerra. A guerra anterior foi financiada pelas grandes potências da guerra fria, a Frelimo recebia dinheiro da esquerda e a Renamo da direita. Não sei como teria sido financiada a nossa guerra caso esta tivesse continuado.

Hoje em dia o governo da Frelimo é amigo de todas as grandes potências, desde os Estados Unidos à China (para não falar que nunca deixou de ser amigos das não potências como a Coreia do Norte e Cuba), não há ninguém com quem a gente não tenha relações, pelo menos diplomáticas. Ao mesmo tempo o nosso governo é acusado, por nós, de assinar contratos de exploração de todos os nossos recursos que são extremamente favoráveis a quem explora. Isto é temos um governo que parece estar “na cama” com todos os detentores de dinheiro e que está a fazer tudo por tudo para agradar aos mesmos.

A Renamo no entanto fala de “políticas de exclusão económica, política e social” por parte do governo e diz que querem “se posicionar na linha da frente para salvar o país” de “tráfico de drogas, tráfico de armas, tráfico de madeiras, de órgãos humanos, de menores, de pescados marinhos, entre outros”. Por outras palavras, a Renamo diz que quer ir à "guerra" (eles ainda não anunciaram guerra de verdade, apesar de não descartarem a hipótese) para parar com os desmandos que possibilitam os negócios de quem tem dinheiro.

Será possível que a Renamo tenha prometido maior bolo dos recursos a um financiador e que à pala disso vai ter dinheiro para fazer a guerra? Tudo é possível, mas se eu fosse investidora eu apostaria num líder que me fosse favorável e que não tivesse de destruir a pouca infraestrutura de apoio que há (para os meus negócios funcionarem) para estar no poder. Assim sendo ainda me custa entender de onde vem o financiamento para a Renamo fazer a guerra; mas uma coisa eu sei, sem financiamento eles não têm nenhuma hipótese de ganhar.

22)    Quanto tempo vai durar essa guerra?
Dias? Semanas? Meses? Anos? Décadas?

Esta pergunta é importante porque a guerra tem de ser custo-efetiva. Isto é, o custo em termos humanos, patrimoniais, financeiros e psicológicos da guerra devem ser menores do que o custo de continuarmos onde estamos. Ou, alternativamente, os benefícios que advirem da guerra, uma sociedade mais justa e uma democracia mais inclusiva, devem ser superiores aos custos. Quanto mais tempo a guerra durar maiores vão ser os custos e mais difícil vai ser justificar a sua necessidade.

Assim sendo temos que pensar bem quanto tempo de guerra achamos que podemos suportar, desde que isso nos traga uma vida melhor? Quantas pessoas suportamos perder, desde que isso nos traga uma vida melhor? Quantas pontes, estradas, casas, fábricas, centrais eléctricas, centrais de tratamento de água, escolas, hospitais suportamos ter de reconstruir, desde que isso nos traga uma vida melhor?

Como é que a destruição do património vai contribuir para o objectivo de acabar com a pobreza? Ou por outra até que ponto estamos dispostos a abrir mão do último objectivo (pelo menos a médio prazo) para atingir os outros três? E até que ponto uma sociedade que está disposta a abrir mão do último objectivo (melhorar a qualidade de vida das pessoas) pode ser considerada justa?

33)    Como é que essa guerra vai acabar?
Esta pergunta é importante porque ela determina o resultado final da guerra, isto é, se a guerra consegue atingir os objectivos.

A Renamo ou a Frelimo têm capacidade de eliminar o “inimigo”? Se sim, o que significa eliminar? Quantos descontentes vão ficar por aí, lambendo as feridas e esperando o momento oportuno para voltar a atacar? Será que alguma vez vamos poder viver sem o medo eterno de um retorno ao conflito nesta situação? E se vivermos para sempre nesse medo, de que valeu a guerra? Por outro lado, como é que eliminar o inimigo vai contribuir para uma verdadeira democracia e uma sociedade mais justa? Será que a liberdade de expressão, principalmente a liberdade de expressar desacordo, vai sair beneficiada com a eliminação (total ou parcial) de qualquer dos grupos?

Se nenhum dos grupos tem a capacidade de eliminar o outro, eventualmente vão chegar a um “acordo de paz” ao qual se seguirão eleições gerais. Nessa altura um dos grupos vai sair perdedor. Sendo que estes mesmos dois grupos, estas mesmas pessoas, foram os que geriram o processo que nos trouxe a este momento de grande tensão quais são as garantias que temos de que no fim desta segunda guerra vão fazer melhor gestão do conflito? Uma guerra tem o efeito imediato de agudizar as diferenças e a falta de confiança entre as pessoas, será esse o melhor caminho para um diálogo mais aberto entre as duas partes? Será que uma agudização das diferenças e da falta de confiança vai resultar numa democracia mais inclusiva? Será que o grupo que ganhar as eleições vai dar espaço ao grupo que perder para este poder, pela oposição, fazer a nossa sociedade ficar mais justa? Será que o grupo que ganhar as eleições vai tolerar a liberdade de expressão do outro grupo com quem tem as relações agudizadas e em quem não confia?

Se queremos ir para a guerra é bom que tenhamos bem presentes as possíveis e prováveis consequências da mesma. É bom que tenhamos um plano claro e efetivo para a sociedade que vamos construir quando esta acabar. É bom que pensemos bem em como vamos lidar com o fim da mesma no sentido de garantir que o fim da guerra não signifique a opressão dos perdedores mas sim a implantação da sociedade pela qual dizemos que vale a pena lutar.

44)    Suponhamos que a Renamo ganhe a guerra. Que aspectos do passado desta instituição mostram que eles vão ser melhores que a Frelimo no sentido de atingir os 3 últimos objectivos?
Esta pergunta é importante porque ajuda a refletir sobre se os meios que estamos a propor usar irão resultar nos fins que queremos atingir. Se depois uma guerra e da destruição que daí advir, tudo o que conseguirmos é mudar o nome e as cores do partido no poder será que valeu a pena lutar?

Que posicionamentos e medidas concretas tomou a Renamo desde a sua criação que nos levam a pensar que esta será mais democrática que a Frelimo?
Que posicionamentos e medidas concretas tomou a Renamo desde a sua criação que nos levam a pensar que esta será menos autoritária que a Frelimo?
Que posicionamentos e medidas concretas tomou a Renamo desde a sua criação que nos levam a pensar que esta vai adotar politicas de governação que tornem a sociedade mais justa?
Que posicionamentos e medidas concretas tomou a Renamo desde a sua criação que nos levam a pensar que esta estará comprometida e terá melhores resultados na luta contra a pobreza e miséria, ou na luta pela melhoria da qualidade de vida das pessoas, no país que a Frelimo?

É importante também que a Renamo venha a público responder a estas perguntas. Um partido que pretende governar, que afirma que vai fazer um trabalho melhor que o atual e que quer credibilidade social para tirar o poder político à força, tem de justificar muito bem o seu posicionamento perante a sociedade. Dizer que o país esta enfermo, que o povo está a sofrer e que o governo da Frelimo é mau não chega.

A Renamo tem que dizer de maneira coerente e convincente porque é que eles como partido são dignos de confiança.
Primeiro, já que se propõe uma guerra, como é que eles pretendem vencer a mesma? Segundo uma vez vencida a guerra como é que eles nos vão governar? O que é que vão fazer diferente da Frelimo? Exatamente que medidas vão tomar e como é que estas medidas vão ser mais efetivas que as da Frelimo? Como é que vão prevenir que os seus ministros não sejam corrompidos? Se vão renegociar os grandes contratos, como é que vão fazer isso sem antagonizar as grandes empresas? Qual é a estratégia para a Educação? Para a Saúde? Para a Polícia e as FADM? Para a Agricultura? Para o desenvolvimento da indústria? Sendo a Renamo o “Pai da Democracia”, como é que eles vão incluir a Frelimo, o MDM e outros partidos no seu governo?

Não basta haver vontade e necessidade de ir para a guerra. Não basta a guerra ser justa. É preciso que a guerra valha a pena, senão a guerra não passa de um exercício militar fútil com um elevado preço. É preciso ter a certeza que no fim da guerra não vamos voltar à mesma situação em que estamos hoje (ou pior). Uma guerra que tem como objectivo uma melhoria da qualidade de vida tem de ter como resultado isso mesmo, de outra maneira vamos pagar um preço altíssimo para daqui a 35 anos estarmos exatamente na mesma situação que estamos hoje (com consideravelmente menos recursos naturais, porque a exploração desses não vai parar).


A última pergunta que se levanta é: será que a guerra é a maneira mais eficiente de atingir os objetivos citados?
Eu acredito que não. Acredito que guerra não é o melhor caminho para a democracia e o entendimento mútuo. Acredito que destruição não é o melhor caminho para melhor qualidade de vida e menos pobreza. Acredito que a guerra foca as politicas de gestão do património do Estado na guerra e não no desenvolvimento de uma sociedade mais justa.

O único objectivo que a guerra pode vir a conseguir melhor e mais depressa que o processo democrático é a remoção da Frelimo do poder. Mas como eu disse acima, não há garantia nenhuma de que uma guerra consiga isso em tempo útil. E mesmo que esse objectivo seja atingido, não há garantia nenhuma de que um governo da Renamo que chegue lá via guerra seja melhor que o governo da Frelimo. E, principalmente, fazer uma guerra com o objectivo de "destruir" um grupo politico é a coisa menos democrática e respeitadora das liberdades cívicas que existe.

 Para mim, uma guerra vai levar-nos cada vez para mais longe dos nossos objectivos. Para mim, a guerra não vale a pena. E para ti?