sexta-feira, 5 de julho de 2013

Sobre o Cancro e as supostas curas cuidadosamente escondidas do público pela Indústria Farmacêutica

Ontem estava numa festa e, por acaso, lá veio a conversa “eu acho que na verdade eles já têm uma cura para o cancro, só não querem que a gente saiba porque iam perder muito dinheiro com isso” e uns minutos mais tarde a mesma pessoa disse alguma coisa sobre “prevenção”.

Esta ideia é muito comum, como também é comum a ideia de que o alimento x ou y são mais efetivos no tratamento do cancro que a quimioterapia (ou a radioterapia). Ainda hoje vi um texto sobre como o limão congelado é 10 mil vezes mais forte que a quimioterapia. O texto diz que a casca do limão tem 5 a 10 vezes mais vitamina C que o sumo do limão em si e que por isso o consumo da casca do limão tem maiores resultados que o consumo de apenas o sumo. Ora a vitamina C é uma vitamina solúvel em água o que significa que qualquer consumo em excesso do necessário para o organismo é eliminado na urina. Isto é, toda a vitamina C que não for utilizada pelas células do organismo é rapidamente eliminada. Consumir mais vitamina C para além daquela que o organismo precisa e pode processar não traz nenhum benefício extra. Não há nenhuma linha de evidência em como o consumo oral (o uso intravenoso ainda está em estudo) de vitamina C possa eliminar células cancerígenas, aliás há uma preocupação crescente de que o consumo de antioxidantes (vitaminas) possa prejudicar o tratamento do cancro. Por outras palavras não há nenhuma razão científica para acreditar que a casca do limão (congelado ou não) possa substituir a quimioterapia no tratamento do cancro.

O cancro é uma doença assustadora. É a primeira causa de morte no mundo. O tratamento é difícil e nem sempre eficaz, sendo por isso natural que as pessoas se apeguem a qualquer indício de esperança de que esta doença pode ser combatida e curada facilmente. Se pensarmos que estas “curas milagrosas” são normalmente “naturais” e aparentemente inócuas podemos argumentar que não há nenhuma razão para “perder tempo” a tentar desmascara-las; afinal se todas as pessoas agora começassem a temperar a comida com casca de limão não lhes ia fazer mal nenhum e elas sentir-se-iam melhor, mais protegidas e seguras.

Eu tenho dois problemas com esse ponto de vista.
Primeiro eu acho que não se deve mentir ao público mesmo que isso faça com que as pessoas se “sintam melhor e mais seguras”. Eu acho que as pessoas merecem saber a verdade e também acho que a ideia de que as pessoas precisam de histórias da carochinha para dormir sossegadas é infantilizar o público o que é uma grande falta de respeito. O público em geral não é menos capaz que eu de lidar com a realidade por muito dura que esta seja.
Segundo porque isto é potencialmente fatal. Se uma pessoa está sossegada com a ideia de que temperar a comida com raspa de casca de limão lhe vai proteger de doenças vai demorar mais tempo a ir ao médico. Essa demora pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Por outras palavras estes “remédios milagrosos” são uma FRAUDE. Eu acho que é extremamente antiético brincar com os sentimentos e medos das pessoas desta maneira e que os que inventam estas “curas mágicas” deviam sofrer consequências legais sérias.

Então vamos lá a factos.
1)   O cancro não é uma doença, mas sim várias.
Cancro é o nome que se usa para identificar um conjunto de doenças genéticas que causam o crescimento descontrolado de células e a dispersão das mesmas. Para além de um cancro da mama ser diferente de um cancro do pulmão, os cancros da mama (e os do pulmão) são diferentes entre si tendo causas e características diferentes e em alguns casos terapias e tratamentos diferentes.
Isto faz com que seja extremamente difícil e improvável encontrar uma “bala de ouro” para curar ou prevenir o cancro.
 
2)   Os cancros são o grupo de doenças mais estudado do mundo.
Sendo a principal causa de morte a nível mundial é normal que haja muito financiamento para investigação sobre as causas e possíveis curas dos vários cancros. No momento em que escrevo existem 2.816.847,00 (dois milhões, oitocentos e dezasseis mil, oitocentos e quarenta e sete) estudos publicados sobre cancro e este número sobe diariamente. Em termos de comparação existem:
·      1.855.016,00 (um milhão, oitocentos e cinquenta e cinco mil e dezasseis) sobre doenças cardiovasculares;
·      1.056.864,00 (um milhão e cinquenta e seis mil, oitocentos e sessenta e quatro) sobre doenças respiratórias;
·      256.283,00 (duzentos e cinquenta e seis mil, duzentos e oitenta e três) sobre o HIV;
·      204.378,00 (duzentos e quatro mil, trezentos e setenta e oito) sobre a tuberculose;
·      181.297,00 (cento e oitenta e um mil, duzentos e noventa e sete) sobre a obesidade;
·      73.236,00 (setenta e três mil, duzentos e trinta e seis) sobre a gripe;
·      66.292,00 (sessenta e seis mil, duzentos e noventa e dois) sobre a malária.
 
A ideia de que há uma restrição no estudo do cancro é completamente fictícia. Aliás a investigação sobre os processos cancerígenos é uma das áreas mais seguras das ciências biomédicas porque há sempre financiamento. Por causa disto muitos laboratórios dedicam pelo menos uma parte do seu tempo a estudar aspetos relacionados com o cancro.
 
3)   Novos tratamentos e terapias estão sempre a “sair” e são rapidamente empregues pelos médicos e pelos Sistemas Nacionais de Saúde no mundo inteiro.
As diretrizes para o tratamento do cancro são dadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS ou WHO) e outras instituições pares desta como o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos da América. Estas diretrizes são revistas regularmente e corrigidas no sentido de refletirem as melhores praticas baseadas em evidencia. Por outras palavras, consoante os estudos vão sendo publicados as diretrizes vão sendo atualizadas.
 
4)   O diagnóstico de cancro é cada vez menos sinónimo de “morte certa” – os tratamentos e terapias funcionam cada vez melhor.
Nos EUA duas em cada três pessoas diagnosticadas com cancro sobrevivem cinco ou mais anos ao diagnóstico. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico maior a probabilidade da eficácia do tratamento. Alguns cancros têm um índice de cura elevadíssimo se o tratamento adequado for aplicado.
 
5)   Não é possível erradicar o cancro, logo não nunca vão acabar os doentes com cancro, logo a indústria farmacêutica não tem nada a perder com o fabrico de melhores tratamentos – pelo contrário.
Mais de 30% das mortes causadas pelo cancro podem ser evitadas com a modificação de hábitos e estilo de vida, mas o conjunto de doenças em si é neste momento impossível de erradicar. O cancro é uma doença complexa com múltiplas causas, algumas das quais não é possível influenciar como por exemplo a disposição genética para certos tipos de cancros (uma pessoa que tenha um gene que aumente o seu risco de desenvolver um cancro). Por outras palavras 70% dos cancros não são evitáveis e vão continuar a constituir um mercado fértil para os fármacos anticancerígenos no futuro previsível.
 
6)   A dinâmica do financiamento público para o estudo de doenças faz com que seja extremamente pouco provável que cientistas escondam descobertas de curas “milagrosas”.
A maior parte dos estudos iniciais para tratamentos são feitos em laboratórios com dinheiro público (universidades e institutos de investigação). A industria farmacêutica só entra na fase final de um produto. Logo a maior parte das “balas de ouro” são descobertas fora da industria farmacêutica e depois vendidas a esta.
Em ciência tem dinheiro quem publica estudos. Quanto mais estudos um laboratório publicar mais financiamento tem. Mas além disto a ciência é uma área de grandes egos. As pessoas são vaidosas e concorrem umas com as outras para mostrar quem é melhor, quem tem a ideia mais brilhante, quem pensou na solução mais imaginativa, quem chegou à resposta primeiro. O ambiente científico é uma espécie de disputa constante pela fama e financiamento. Além disso o elevado número de pessoas a trabalhar neste problema implica que haja uma corrida constante entre os vários laboratórios, isto resulta na publicação, às vezes até precoce, de qualquer conjunto de dados com alguma significância. Por outras palavras quando alguém perceber que está diante da “bala de ouro” 90% da informação já foi publicada e essa pessoa corre o risco sério de perder o Nobel se não publicar os 10% que faltam imediatamente.
Isto significa que NENHUM cientista no mundo vai ficar com a cura para o cancro guardada na gaveta. 
 
7)   A história mostra que a humanidade está disposta a erradicar doenças ou pelo menos a diminuir consideravelmente o seu impacto.
A varíola foi completamente erradicada com o uso da vacina. A poliomielite vai no mesmo caminho. O impacto de doenças como a papeira, o sarampo, a hepatite A e B, a difteria, o tétano, a pneumonia, a tuberculose e a varicela, de entre outras, foi diminuído consideravelmente nas últimas décadas. A nova vacina para a infecção com HPV (introduzida em 2008) mostra que a sociedade atual está disposta a fazer novas campanhas de vacinação que já estão a resultar numa redução significativa do número de novos cancros cervicais (um dos que mata mais no mundo).
Para além da prevenção com vacinas temos todos os tratamentos efetivos que foram desenvolvidos nos últimos 50 anos, tornando doenças como a sífilis (o HIV do passado) em quase insignificantes.
Nós não vamos nunca conseguir erradicar todas as doenças. Os parasitas que nos causam doença evoluem connosco e vão sempre aparecendo novas estirpes. As doenças não comunicativas são quase impossíveis de erradicar pois fazem parte do desgaste natural do corpo humano com a idade. Enquanto houverem seres humanos a industria farmacêutica vai ter clientes. Eles não precisam de inventar planos maquiavélicos para fazerem dinheiro, a natureza está do lado deles.


Por outras palavras o uso das “curas milagrosas” que atrasem a ida ao médico ou substituam o tratamento convencional é uma causa direta para o aumento da morbilidade e mortalidade dos cancros, para além de ser uma fraude que é um crime. Estas “curas milagrosas” não são inócuas como muitos pensam e servem para diretamente aumentar o sofrimento de milhões de pessoas no mundo.

Para além das “curas milagrosas” farmacologicamente inócuas existem também “remédios” que podem piorar a situação e causar outras doenças. Estas são ainda mais perigosas e devem ser denunciadas imediatamente.


  • ·      “Trata todos os tipos de cancro.”
  • ·      “O cancro da pele desaparece.”
  • ·      “Diminui tumores malignos.”
  • ·      “Não é tóxico.”
  • ·      “Não causa doença.”
  • ·      “Evita cirurgias, quimioterapia, radioterapia ou outros tratamentos convencionais.”
  • ·      “Trata cancros facilmente e sem dor.”


  • ·      Afirmações de que o produto é uma forma rápida e efetiva de “curar tudo” ou diagnosticar uma grande variedade de doenças.
  • ·      Sugestões de que o produto pode curar doenças sérias ou incuráveis.
  • ·      Afirmações do tipo “avanço científico”, “cura milagrosa”, “ingrediente secreto” ou “remédio ancestral”.
  • ·      Termos impressionantes do tipo “ponto de estimulação da fome” e “termogénise” em produtos para emagrecer.
  • ·      Afirmações de que o produto é seguro por ser “natural”.
  • ·      Casos não documentados de pacientes ou testemunhos pessoais de consumidores ou médicos que falam de resultados incríveis.
  • ·      Afirmações de oferta limitada ou da necessidade de pagamento adiantado.
  • ·      Promessas de risco-zero ou garantias de devolução do dinheiro.
  • ·      Promessas de uma cura fácil para problemas como a obesidade, perca de cabelo ou impotência.


Para mais informação ver: