quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ebola – perguntas e respostas


1.     O que é o Ebola?
Ebola é o nome de um vírus que foi identificado pela primeira vez em 1976 no Zaire (hoje República Democrática do Congo) numa aldeia perto de um rio com o mesmo nome.
Existem 5 subtipos do vírus Ebola:  Ebola-Zaire; Ebola-Sudão; Ébola-Costa do Marfim; Ebola-Bundibugyo; Ebola-Reston. Destes o Ebola-Reston não causa doença em seres humanos. Os outros 4 causam uma doença que pertence ao grupo das febres hemorrágicas virais.
O subtipo mais virulento (que causa sintomas mais severos; mais perigoso) é o Ebola-Zaire. Este é o subtipo que está a causar o surto na África Ocidental neste momento.

2.     O que são febres hemorrágicas virais?
É um grupo de doenças que variam muito em termos de severidade. Têm em comum o facto de que criam coágulos dentro dos vasos sanguíneos ao ponto de acabar com a reserva de factores coagulantes aumentando a probabilidade de sangramentos. Para além do Ebola, outros exemplos de febres hemorrágicas são: a dengue, febre amarela, vírus Marburg, febre de Lassa.

3.     Como é a doença?
Normalmente os sintomas aparecem 5 a 10 dias após a infecção, mas pode levar até 20 dias. Os primeiros sinais e sintomas são idênticos aos da gripe e incluem febre, dor de cabeça, dores musculares e nas articulações e fraqueza. Com a progressão da doença aparecem outros sintomas com irritação da pele, tosse, enjoo e vómitos, dor abdominal. Os sangramentos (hemorragias) podem se manifestar de várias maneiras (a severidade dos mesmos varia de pessoa para pessoa). A pessoa pode sangrar pelos olhos, orelhas, nariz e boca; ter sangramentos internos; tossir sangue; vomitar sangue; ter sangue nas fezes. Por fim os órgãos vitais param de funcionar o que leva à morte.
As pessoas que sobrevivem à doença podem ficar com sequelas para a vida inteira como hepatite, fatiga, dor de cabeça e inflamação testicular.

4.     Como se apanha?
O vírus é transmitido quando fluídos corporais (suor, saliva, lágrimas, sangue, vómito, espeturação, urina, sémen, fluídos vaginais) de um animal ou pessoa infectados entram em contacto com as mucosas ou ferimentos abertos de uma pessoa não infectada. Mucosas são a pele dentro da boca, do nariz, dos olhos e dos órgãos genitais.
Os surtos começam quando uma pessoa é infectada ao preparar carne de um animal selvagem que tinha o vírus. Esta pessoa depois fica doente e transmite a infecção para as pessoas que cuidam dela.
Como o vírus está no suor basta tocar na roupa suada de uma pessoa infectada e depois levar a mesma mão aos olhos para ficar infectado.
O vírus não se transmite através do ar. Neste aspecto é diferente dos vírus que causam as constipações e as gripes. Isto faz com que este vírus seja muito menos perigoso que certos vírus da gripe.

5.     Qual é a taxa de mortalidade?
A taxa de mortalidade (percentagem de pessoas infectadas que morre) varia consoante o subtipo do vírus. O vírus mais virulento (que causa sintomas mais severos e que tem a maior taxa de mortalidade) é o Ebola-Zaire. Este é o subtipo que está a causar o surto na África Ocidental neste momento.
O Ébola-Zaire tem uma taxa de mortalidade que varia entre 90% para as pessoas que não recebem nenhuma atenção médica e 50% a 60% para as pessoas que recebem cuidados intensivos hospitalares.

6.     Qual é o tratamento/vacina?
Neste momento não existe nenhuma vacina contra o vírus Ébola. Existem algumas vacinas que estão a ser desenvolvidas e talvez venham a estar no mercado no futuro.

Infelizmente também não existe nenhum medicamento que ataca o vírus em si. Mas isto não significa que não haja nada que o pessoal de saúde possa fazer, como eu disse acima a probabilidade de sobreviver aumenta bastante com o internamento hospitalar.

No hospital as pessoas recebem cuidados intensivos, re-hidratação por soro, transfusões sanguíneas e reanimação se for necessário.

Existem alguns medicamentos em fase experimental que precisam passar por testes clínicos antes de serem libertados para o mercado. Um destes medicamentos é o ZMapp que foi usado esta semana para tratar dois americanos que contraíram o vírus. Felizmente ambos recuperaram da infecção e parece que vão sobreviver. No entanto não é possível saber se esta recuperação se deve ao ZMapp ou não (lembro que entre 50% a 60% das pessoas que contraem a doença sobrevivem desde que recebam tratamento médico), logo é pouco provável que a OMS recomende o uso deste medicamento para já. 

7.     Como se previne?
Deve-se evitar ao máximo contacto com pessoas infectadas. Se há suspeita de que alguém possa estar infectado, deve-se levar essa pessoa à unidade sanitária mais próxima o mais rápido possível. Todas as pessoas que entraram em contacto com a pessoa infectada devem ser monitoradas para o aparecimento de qualquer dos sintomas e sinais de infecção. Os bens pessoais da pessoa infectada, bem como a sua casa deve ser desinfectado por pessoal treinado o mais rapidamente possível.

Evita levar as mãos à cara. Lava as mãos frequentemente. Não toques em pessoas infectadas ou com suspeita de infecção sem luvas. Usa o preservativo sempre que tiveres relações sexuais.


8.     Quem corre maior risco de contrair o vírus?
Todas as pessoas que entrarem em contacto directo com pessoas infectadas. Os familiares diretos dos doentes e o pessoal de saúde são as pessoas que mais risco correm.

9.     Será que esta doença vai chegar a Moçambique?
O surto neste momento está a ocorrer na África Ocidental, especificamente na Guiné, na Libéria e na Serra Leoa. Houve um caso de um paciente que foi para Lagos, Nigéria e contaminou algumas enfermeiras lá, mas a situação na Nigéria, até agora, está muito mais controlada.

Devido à atenção que o surto está a ter nestes países algumas companhias aéreas cancelaram os voos para os mesmos. Ao mesmo tempo estão a  ser tomadas medidas para evitar a migração de pessoas que possam estar infectadas. Tendo em conta estas medidas e o facto de que não há nenhum voo direto para Moçambique a partir dos países afectados, neste momento é pouco provável que o surto chegue a Moçambique. Claro que isto pode mudar com o evoluir da situação, mas por enquanto Moçambique está relativamente protegido pela distância geográfica e falta de acessos fáceis. 

10.  Perspectiva
O primeiro surto do vírus Ebola foi em 1976, há 38 anos atrás. Desde então o número total de casos (até o dia 6 de Agosto de 2014) é de 4 116 (quatro mil cento e dezasseis). Este número inclui casos em que há apenas suspeita de infecção, em que a infecção é provável (um pouco mais de certeza que em casos onde só se suspeita) e confirmados (por teste laboratorial). Estes casos incluem infecções pelos 4 subtipos que causam doença em seres humanos. O número de total de mortes até agora é 2 509 (dois mil, quinhentos e nove), o que representa uma taxa de mortalidade cumulativa de 61%.

Nestas situações é sempre bom ter um pouco de perspectiva. O vírus Ebola causa uma doença horrível, não há nenhuma dúvida. Todos os esforços possíveis devem ser feitos para evitar que este surto se espalhe para outras regiões e para evitar novas infecções na região afectada.

Existe uma outra doença, também causada por um vírus, que tem uma taxa de mortalidade que ronda os 100%. A doença tem um período de incubação mais longo, 1 a 3 meses, mas os sinais e sintomas são extremamente horríveis: febre, comichão e uma sensação de queimadura na pele são seguidos de uma inflamação cerebral fatal. A doença tem duas formas, numa delas a pessoa exibe sinais de hiperactividade e excitação, medo da água e às vezes do ar. Passados alguns dias a pessoa morre. Em 30% dos casos a infecção resulta em paralisia muscular progressiva que acaba em coma e finalmente morte. Existe uma vacina para esta doença, mas o acesso à mesma é restrito. Esta doença existem em 150 países do mundo e é responsável por 55 000 (cinquenta e cinco mil) mortes por ano, na sua maioria crianças menores de 15 anos. Esta doença é a raiva. Em Moçambique nós temos o vírus da raiva.

O plasmódio (parasita que causa a malária) continua a ser o organismo mata mais seres humanos no mundo sendo responsável por aproximadamente 600 000 (seiscentas mil) mortes por ano. Não existe ainda nenhuma vacina que seja eficaz na proteção contra a malária. Existem vários medicamentos dos quais a artemisina é o mais eficaz. No entanto há uma nova estirpe do plasmódio que é resistente a este medicamento fazendo com que este não seja eficaz no tratamento da malária. Se esta estirpe resistente se espalha pelo mundo o número anual de mortes causadas pela malária vai aumentar. Em Moçambique a malária é a principal causa de morte por doenças infecto-contagiosas.

A probabilidade de um surto de Ebola em Moçambique é neste momento pequena, apesar de ser maior que a probabilidade do mesmo na Europa por exemplo. A probabilidade de que um possível surto em Moçambqiue venha a infectar qualquer um de nós é ainda mais pequena, estes surtos tendem a infectar pouca gente (o surto actual que é o mais severo já registado até agora apenas afectou 0,008% da população dos 3 países), na sua maioria pessoal de saúde.

Por outro lado a probabilidade de qualquer um de nós ter ou contrair o vírus da Sida em Moçambique é neste momento 11%.


Quando se trata de risco a familiaridade leva a pessoa a ignorar. Nós damos pouca importância a riscos reais e severos contra a nossa saúde e temos verdadeiro pânico de riscos que provavelmente nunca encontraremos. É por isso que as pessoas têm mais medo de tubarões do que de cães (que transmitem a raiva) por exemplo. No caso dos surtos de Ebola estamos perante o mesmo fenómeno. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Quando as "ajudas" desajudam... ou sobre a hipocrisia do opressor.

Micaela Oliveira é uma estilista de alta-costura que faz vestidos de noiva e de gala. Rita Pereira é uma atriz e modelo que neste momento tem contrato com a Micaela Oliveira. Como promoção da sua mais recente colecção a Micaela Oliveira fez um photoshoot em Moçambique.
Abaixo transcrevo na íntegra o texto de introdução a esta campanha:


ÁFRICA - O cenário desta nova campanha “MICAELA OLIVEIRA 2014”
A terra, o cheiro, as paisagens, as pessoas, a sua genuinidade que ficarão para sempre na minha memória... uma viagem cheia de peripécias fez destes dias uma experiência única de vida e uma sessão fotográfica maravilhosa!
Faltam palavras para transmitir as sensações vividas nesta aventura.
Os momentos passados na cidade de Maputo não foram fáceis, no entanto foram emocionantes, indescritíveis…de tão belos! A autenticidade das pessoas, o afecto e o carinho que nos demonstraram fazem-me agora emergir recordações intensas e um sentimento de saudade! Percebi que um sorriso é a riqueza daquele povo. Um muito obrigado a eles, pois engrandecem-nos como seres humanos.
A toda a equipa, agradeço todo o esforço, dedicação e empenho!
Um até breve Moçambique!!”

(só este texto já me trás um sabor amargo à boca)


A primeira parte do photoshoot é feita na Reserva dos Elefantes de Maputo. A modelo descreve uma viagem de horas (do Hotel Polana até à Reserva leva, no máximo, 2 horas - a não ser que se tenham perdido, e são duas horas porque 1 é no batelão a atravessar a baía), trocas de roupa no carro e esperas pelos animais (algumas zebras e girafas - realmente a densidade animal nos nossos parques não é grande, por isso não me espanta nada que tivessem de esperar um bocado para os ver). Uma verdadeira aventura! As fotos estão bonitas, o contraste entre a savana e os cinco vestidos de luxo serve para realçar a beleza de ambos.

A segunda parte da "aventura" é na cidade de Maputo, no bairro da Mafalala, onde a modelo é fotografada em mais quatro vestidos no meio de alguns habitantes do bairro. Estas fotografias também estão bonitas e contam uma estória já conhecida do amigo europeu e do pobre africano.

Se havia alguma dúvida sobre a estória que este photoshoot quer contar há uma foto específica que dissipa quaisquer dúvidas. Nesta foto, a preferida da modelo, só aparecem duas caras, a da modelo e a de uma criança que chora uma lágrima. A expressão da modelo mostra verdadeira compaixão para com esta pobre criança africana que chora. É muito bonita a foto (apesar de não servir para vender nenhum vestido). A estória do photoshoot... nem tanto. É uma estória cansada sobre a África selvagem e bela cheia de animais magníficos e de pessoas (também selvagens) pobres e tristes. É uma estória deprimente. É uma estória simplista. É uma estória opressiva.

Opressiva no sentido em que quem a conta é o opressor e as personagens são os oprimidos. O que faz desta estória uma estória deprimente é que quem a está a contar, a estilista e a modelo e todos os outros que trabalharam no photoshoot pertencem ao grupo dos privilegiados (europeus) e as personagens pertencem ao grupo dos desprivilegiados (africanos). E para completar o cliché da coisa quando os desprivilegiados reclamaram os privilegiados ficaram ofendidos.

Este é um dos problemas que os grupos de desprivilegiados encontram quando tentam falar dos seus problemas. É preciso ter atenção e não ofender os sentimentos dos privilegiados. Faz parte destas discussões que os privilegiados vão transformar uma discussão sobre os problemas dos desprivilegiados numa discussão sobre os sentimentos dos privilegiados. Afinal os privilegiados estão habituados a ser o centro da atenção...

Voltando ao belíssimo photoshoot, algumas pessoas não gostaram dos contrastes... não gostaram de ver mais uma vez a sua identidade reduzida a animais selvagens, pobreza e tristeza (porque será?...). Estas pessoas reclamaram. Disseram que esta estória, apesar de não ser mentira, não é verdade. Afinal não representa a realidade deles, têm razão. Disseram que usar a pobreza de um povo para vender roupas de luxo é de uma hipocrisia que mete nojo e... têm razão. Questionaram a lágrima do foto preferida, era uma lágrima falsa que deliberada e falsamente tenta passar uma imagem de um povo sofrido ou é uma lágrima real selvaticamente explorada(?)... têm razão.

A modelo respondeu que as pessoas estavam felizes e isso é o mais importante. Claro que estavam felizes! Deve ter sido uma festa. Quando uma produção do género apareceu na minha universidade em Cape Town também foi uma festa e sempre que uma produção do género aparece aqui na minha universidade nos Estados Unidos também é uma festa! Isso é natural, qualquer pessoa que não vive de photoshoots acha um photoshoot uma festa, seja essa pessoa triste e rica ou alegre e pobre. A pergunta cínica seria "estavam felizes porque foram pagos de acordo com a geração de vendas que a exploração da sua falsa tristeza e pobreza vai criar ou estavam felizes porque é emocionante ter um monte de gente a fazer um photoshoot no bairro?". Mas deixemos o cinismo para lá.

Uma das razões que eu acho este photoshoot irónico é que, tirando o facto de eu ser branca, eu em criança era exactamente como as crianças que aparecem nessas fotos. Descalça a brincar na rua e a subir a árvores. No entanto ninguém nunca vai associar as minhas fotografias de criança a um futuro perdido, as minhas fotos não qualificariam para este photoshoot... É o facto de que as fotos destas crianças qualificam que mostra o quão opressivas estas fotos são.

Outros responderam que este photoshoot mostra a realidade de Moçambique? Aqui eu fico confusa, que realidade? É que a própria estilista fala do eterno sorriso moçambicano no seu texto sobre a campanha... que realidade é esta de crianças com lágrimas na Mafalala (para além das lágrimas normais que todas as crianças em todo o mundo têm)? Será que mais ninguém vê a hipocrisia nisto? E se, em vez de Moçambique, o photoshoot tivesse sido num bairro pobre em Lisboa - usando crianças lisboetas com lágrimas no rosto para vender roupas de luxo? Será que aí os comentários seriam  "essa é a realidade"?

Houve quem disse que esta é a única maneira de obtermos doações... Sinceramente, estamos em 2014, será que as pessoas acham mesmo que Moçambique recebe empréstimos graças a campanhas publicitárias de roupas de luxo que exploram crianças negras com lágrimas no rosto? Parece que sim. Deixem-me que vos explique como isto funciona, Moçambique recebe empréstimos, com taxas de juros altas, não de pessoas particulares mas sim de governos, do Banco Mundial e do FMI. Quando estes governos (e instituições) estão a decidir se vão emprestar dinheiro a Moçambique ou não eles olham para uma série de dados - as campanhas publicitárias de uma marca de alta-costura não são um desses dados. Nós podemos publicar uma foto por dia em todos os jornais do mundo com uma criança a chorar que isso não vai melhorar as nossas chances de obter empréstimos se as nossas políticas económicas não suscitarem confiança.

Se estavam a falar de doações particulares de pessoas que não são milionárias... com todo o respeito, esse tipo de doações não são a solução para os nossos problemas. Da mesma maneira que Portugal (ou a Grécia ou a Irlanda) não precisa de doações de roupa mas sim de dinheiro de verdade nos cofres, Moçambique também precisa é de dinheiro de verdade nos cofres... o resto é cosmético, ajuda só a tapar buracos (e às vezes nem isso).

E a seguir entramos na má gestão de fundos por parte do governo moçambicano e aí eu pergunto "o que é que o cú tem a ver com as calças?". Como é que a corrupção em Moçambique justifica o usar crianças a chorar para vender roupa de luxo? Como é que a corrupção em Moçambique justifica o perpetuar da imagem do pobre selvagem que não pode fazer nada para além de chorar? Como é que a corrupção em Moçambique justifica o diminuir de um povo inteiro para vender roupa de luxo? Será que a corrupção do governo de Portugal justificaria o usar do povo português da mesma maneira? Será que estas pessoas ficariam contentes se este photoshoot tivesse sido feito nas ruas de Lisboa?

E para quem ainda está a falar de "ajudas" eu relembro que esta não é uma campanha para caridade mas sim uma publicidade para vender roupas de luxo. A única pessoa que vai receber doações por causa deste photoshoot é a Micaela Oliveira, não as crianças da Mafala e muito menos as crianças do Congolote.


O problema deste photoshoot é que explora a pobreza real de um povo. O problema deste photoshoot é que reduz este povo a essa pobreza. O problema deste photoshoot é que é um objecto de opressão de um povo.