terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Quando as "ajudas" desajudam... ou sobre a hipocrisia do opressor.

Micaela Oliveira é uma estilista de alta-costura que faz vestidos de noiva e de gala. Rita Pereira é uma atriz e modelo que neste momento tem contrato com a Micaela Oliveira. Como promoção da sua mais recente colecção a Micaela Oliveira fez um photoshoot em Moçambique.
Abaixo transcrevo na íntegra o texto de introdução a esta campanha:


ÁFRICA - O cenário desta nova campanha “MICAELA OLIVEIRA 2014”
A terra, o cheiro, as paisagens, as pessoas, a sua genuinidade que ficarão para sempre na minha memória... uma viagem cheia de peripécias fez destes dias uma experiência única de vida e uma sessão fotográfica maravilhosa!
Faltam palavras para transmitir as sensações vividas nesta aventura.
Os momentos passados na cidade de Maputo não foram fáceis, no entanto foram emocionantes, indescritíveis…de tão belos! A autenticidade das pessoas, o afecto e o carinho que nos demonstraram fazem-me agora emergir recordações intensas e um sentimento de saudade! Percebi que um sorriso é a riqueza daquele povo. Um muito obrigado a eles, pois engrandecem-nos como seres humanos.
A toda a equipa, agradeço todo o esforço, dedicação e empenho!
Um até breve Moçambique!!”

(só este texto já me trás um sabor amargo à boca)


A primeira parte do photoshoot é feita na Reserva dos Elefantes de Maputo. A modelo descreve uma viagem de horas (do Hotel Polana até à Reserva leva, no máximo, 2 horas - a não ser que se tenham perdido, e são duas horas porque 1 é no batelão a atravessar a baía), trocas de roupa no carro e esperas pelos animais (algumas zebras e girafas - realmente a densidade animal nos nossos parques não é grande, por isso não me espanta nada que tivessem de esperar um bocado para os ver). Uma verdadeira aventura! As fotos estão bonitas, o contraste entre a savana e os cinco vestidos de luxo serve para realçar a beleza de ambos.

A segunda parte da "aventura" é na cidade de Maputo, no bairro da Mafalala, onde a modelo é fotografada em mais quatro vestidos no meio de alguns habitantes do bairro. Estas fotografias também estão bonitas e contam uma estória já conhecida do amigo europeu e do pobre africano.

Se havia alguma dúvida sobre a estória que este photoshoot quer contar há uma foto específica que dissipa quaisquer dúvidas. Nesta foto, a preferida da modelo, só aparecem duas caras, a da modelo e a de uma criança que chora uma lágrima. A expressão da modelo mostra verdadeira compaixão para com esta pobre criança africana que chora. É muito bonita a foto (apesar de não servir para vender nenhum vestido). A estória do photoshoot... nem tanto. É uma estória cansada sobre a África selvagem e bela cheia de animais magníficos e de pessoas (também selvagens) pobres e tristes. É uma estória deprimente. É uma estória simplista. É uma estória opressiva.

Opressiva no sentido em que quem a conta é o opressor e as personagens são os oprimidos. O que faz desta estória uma estória deprimente é que quem a está a contar, a estilista e a modelo e todos os outros que trabalharam no photoshoot pertencem ao grupo dos privilegiados (europeus) e as personagens pertencem ao grupo dos desprivilegiados (africanos). E para completar o cliché da coisa quando os desprivilegiados reclamaram os privilegiados ficaram ofendidos.

Este é um dos problemas que os grupos de desprivilegiados encontram quando tentam falar dos seus problemas. É preciso ter atenção e não ofender os sentimentos dos privilegiados. Faz parte destas discussões que os privilegiados vão transformar uma discussão sobre os problemas dos desprivilegiados numa discussão sobre os sentimentos dos privilegiados. Afinal os privilegiados estão habituados a ser o centro da atenção...

Voltando ao belíssimo photoshoot, algumas pessoas não gostaram dos contrastes... não gostaram de ver mais uma vez a sua identidade reduzida a animais selvagens, pobreza e tristeza (porque será?...). Estas pessoas reclamaram. Disseram que esta estória, apesar de não ser mentira, não é verdade. Afinal não representa a realidade deles, têm razão. Disseram que usar a pobreza de um povo para vender roupas de luxo é de uma hipocrisia que mete nojo e... têm razão. Questionaram a lágrima do foto preferida, era uma lágrima falsa que deliberada e falsamente tenta passar uma imagem de um povo sofrido ou é uma lágrima real selvaticamente explorada(?)... têm razão.

A modelo respondeu que as pessoas estavam felizes e isso é o mais importante. Claro que estavam felizes! Deve ter sido uma festa. Quando uma produção do género apareceu na minha universidade em Cape Town também foi uma festa e sempre que uma produção do género aparece aqui na minha universidade nos Estados Unidos também é uma festa! Isso é natural, qualquer pessoa que não vive de photoshoots acha um photoshoot uma festa, seja essa pessoa triste e rica ou alegre e pobre. A pergunta cínica seria "estavam felizes porque foram pagos de acordo com a geração de vendas que a exploração da sua falsa tristeza e pobreza vai criar ou estavam felizes porque é emocionante ter um monte de gente a fazer um photoshoot no bairro?". Mas deixemos o cinismo para lá.

Uma das razões que eu acho este photoshoot irónico é que, tirando o facto de eu ser branca, eu em criança era exactamente como as crianças que aparecem nessas fotos. Descalça a brincar na rua e a subir a árvores. No entanto ninguém nunca vai associar as minhas fotografias de criança a um futuro perdido, as minhas fotos não qualificariam para este photoshoot... É o facto de que as fotos destas crianças qualificam que mostra o quão opressivas estas fotos são.

Outros responderam que este photoshoot mostra a realidade de Moçambique? Aqui eu fico confusa, que realidade? É que a própria estilista fala do eterno sorriso moçambicano no seu texto sobre a campanha... que realidade é esta de crianças com lágrimas na Mafalala (para além das lágrimas normais que todas as crianças em todo o mundo têm)? Será que mais ninguém vê a hipocrisia nisto? E se, em vez de Moçambique, o photoshoot tivesse sido num bairro pobre em Lisboa - usando crianças lisboetas com lágrimas no rosto para vender roupas de luxo? Será que aí os comentários seriam  "essa é a realidade"?

Houve quem disse que esta é a única maneira de obtermos doações... Sinceramente, estamos em 2014, será que as pessoas acham mesmo que Moçambique recebe empréstimos graças a campanhas publicitárias de roupas de luxo que exploram crianças negras com lágrimas no rosto? Parece que sim. Deixem-me que vos explique como isto funciona, Moçambique recebe empréstimos, com taxas de juros altas, não de pessoas particulares mas sim de governos, do Banco Mundial e do FMI. Quando estes governos (e instituições) estão a decidir se vão emprestar dinheiro a Moçambique ou não eles olham para uma série de dados - as campanhas publicitárias de uma marca de alta-costura não são um desses dados. Nós podemos publicar uma foto por dia em todos os jornais do mundo com uma criança a chorar que isso não vai melhorar as nossas chances de obter empréstimos se as nossas políticas económicas não suscitarem confiança.

Se estavam a falar de doações particulares de pessoas que não são milionárias... com todo o respeito, esse tipo de doações não são a solução para os nossos problemas. Da mesma maneira que Portugal (ou a Grécia ou a Irlanda) não precisa de doações de roupa mas sim de dinheiro de verdade nos cofres, Moçambique também precisa é de dinheiro de verdade nos cofres... o resto é cosmético, ajuda só a tapar buracos (e às vezes nem isso).

E a seguir entramos na má gestão de fundos por parte do governo moçambicano e aí eu pergunto "o que é que o cú tem a ver com as calças?". Como é que a corrupção em Moçambique justifica o usar crianças a chorar para vender roupa de luxo? Como é que a corrupção em Moçambique justifica o perpetuar da imagem do pobre selvagem que não pode fazer nada para além de chorar? Como é que a corrupção em Moçambique justifica o diminuir de um povo inteiro para vender roupa de luxo? Será que a corrupção do governo de Portugal justificaria o usar do povo português da mesma maneira? Será que estas pessoas ficariam contentes se este photoshoot tivesse sido feito nas ruas de Lisboa?

E para quem ainda está a falar de "ajudas" eu relembro que esta não é uma campanha para caridade mas sim uma publicidade para vender roupas de luxo. A única pessoa que vai receber doações por causa deste photoshoot é a Micaela Oliveira, não as crianças da Mafala e muito menos as crianças do Congolote.


O problema deste photoshoot é que explora a pobreza real de um povo. O problema deste photoshoot é que reduz este povo a essa pobreza. O problema deste photoshoot é que é um objecto de opressão de um povo. 

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